sábado, 23 de agosto de 2008

Noll e a liberdade

Já contei aqui que João Gilberto Noll, na Flip deste ano, leu trecho de seu novo livro imitando a voz de um velho, narrando o encontro sexual de dois adolescentes na sala de espera de um dentista.

O lusco-fusco do corredor mostrava-se cúmplice daquilo que queríamos desbravar e matar ao mesmo tempo (...) Parecíamos répteis serpenteando, deitados de lado, agora frente a frente. Onde o corpo de um recuava, o do outro avançava. De repente, aflito, trêmulo, o guri me trouxe o cu para perto da minha boca.

Eram 11 horas da manhã e crianças brincavam em meio aos bonecos de papelão na Praça da Matriz. Meu chefe: "Que absurdo. Isso não é leitura para essa hora, ao lado dessa praça cheia de crianças."

As crianças não estavam nem aí. Mas na platéia, pessoas se remexiam nas cadeiras ao som da voz monocórdia que continuava:

Cheguei bem perto e lambi. Ele estremeceu. (...) Vinha-me então esse gosto condenado na boca, gerando mais e mais excitação, o transe até. Preferia estar ali, como o cu do menino na cara, a estar com minha fuça esterelizada pelos cadernos do devem diário. Juramos não contar essa tarde a ninguém.

Fiquei fascinada por aquele homem lendo sua obra sozinho em um palco, literalmente sem vergonha. Expondo sua alma, seu desejo, suas fantasias mais loucas.

Acabou-se a Flip e fui atrás do livro, Acenos e afagos. A maluquice continua. O protagonista sem nome é apaixonado desde sempre por um engenheiro moreno (o mesmo da sala de espera do dentista) que o leva para um passeio em um submarino alemão, cuja tripulação é de marinheiros alemães gays. (!!!)

A narrativa é ao mesmo tempo pornográfica, escatológica, engraçada – em alguns momentos dei gargalhadas – mas, principalmente, literária. Noll tem 14 livros publicados (toda a obra está sendo relançada pela Record) e é vencedor por cinco vezes do Jabuti, o mais importante prêmio literário brasileiro.

Lembro que, no ano passado, para uma homenagem a Gabriel García Marquez na Bienal do Rio, tive que editar uma longa entrevista deste autor ao jornalista Roberto D´Ávila. Em certo trecho, García Marquez revela que ter lido A metamorfose, de Kafka, foi um ponto de mutação em sua vida de escritor. Ao ler a história do homem que acorda e se descobre transformado em barata, pensou consigo: "então... isso pode em literatura?" A partir daí, sentiu-se livre para dar à luz sua obra, onde fantasia e realidade convivem harmoniosamente o tempo todo.

A leitura de Noll, de quem sempre ouvi falar e por quem nutria discreto interesse, mesmo sem ter lido nenhum de seus livros, teve efeito semelhante em mim. Quer dizer que isso pode em literatura? Desnudar-se, expor a alma e as fantasias mais loucas, as dores e amores, tudo de bom e de ruim – e quem é capaz de julgar o que é esse ruim?

Depois do Noll, não mais eu, graças a Deus.

http://www.joaogilbertonoll.com.br/





5 comentários:

Lily disse...

Nossa!
Deve ter sido realmente uma cena impressionante a do cara lendo uma obra no mínimo inusitada! rs

Queria ter ido à Flip! Mas nunca arranjo companhia! Qm sabe ano q vem eu não vou?

bjkss

Marcia Regis disse...

Vavá,

Que barato! Quero ler esse livro quando vc terminar. Acho que ser humano na escrita é a arte da literatura. bjs

Pâmela disse...

Olha só, concordo com a sua conclusão: desnudar-se, romper as próprias barreiras. Mas sou obrigada a dizer que esse não é o meu tipo de literatura. Não importa o que disse o Jabuti!
De qualquer modo, tem que ter muita coragem para ler isso (depois de ele mesmo escrever) para uma platéia visivelmente incomodada com a pornografia.
Não gostei do texto mas já sou fã do escritor!

Monica Loureiro disse...

Engraçado...
Eu lí A METAMORFOSE estes dias e pensei isso também . Agora que voce comentou , me sinto mais livre...

Monica Loureiro disse...

Engraçado...
Eu lí A METAMORFOSE estes dias e pensei isso também . Agora que voce comentou , me sinto mais livre...