sábado, 30 de agosto de 2008

Sabedoria de índio

Situação: uma amiga-irmã fica com um cara duas vezes, mas está carente e acaba se afeiçoando. O camarada deixa claro que não quer namorar, mas é receptivo, correspende etc. O terceiro encontro acaba não acontecendo, porque ele tira o corpo fora. Ela fica chateada, mas segue em frente.

Ontem à noite, na porta do no Circo Voador, pouco antes de encontrá-la para assistirmos ao show da Marisa Monte e a Velha Guarda da Portela, aparece o cara de mãos dadas com outra mulher. Feia, vulgar, infinitamente inferior à minha amiga-irmã (e eu não estou sendo "coruja, é a pura realidade). Cumprimentei e não dei conversa; eles se afastaram. Lá pelas tantas, chega minha amiga-irmã toda feliz, nos abraçamos e beijamos, confraternizamos com outras amigas em comum, reunidas para o show. Entramos no Circo.

Cinco minutos depois, minha amiga-irmã me puxa pelo cotovelo: "O fulano está aí com outra mulher, né?" Levei um susto. "Como vc sabe? Vc viu?", perguntei. "Não, a cicrana me contou..."

Fiquei bastante contrariada. Péra aí: contar pra que? Minha amiga-irmã estava toda feliz, alegre, animada. O Circo Voador lotado. Não vislumbrei o tal fulano sequer uma vez mais, nem de longe. Questionei a cicrana – que por acaso é outra amiga-irmã – e ela: "Ora, tem que contar! Se fosse eu, queria que me contassem!"

Pensei com meus botões e me lembrei de uma entrevista que li há muito tempo, com um índio de uma etnia que não me recordo o nome. Ele dizia algo mais ou menos assim:

"A diferença entre nós e o homem branco, é que ele quer deixar marcas por onde passa. Monumentos, grandes obras. Conosco é o contrário. Quanto menos marcas, quanto menos interferências, melhor."

Não sou índio, mas à medida que envelheço e amadureço, percebo que quanto menos tento interferir no curso da vida e das situações, mais aprendo com elas. São lições inesperadas a todo momento, dádivas, que observo e aproveito de acordo com meu momento interior. Não significa ser passiva ou mosca-morta, mas acho que tem a ver com uma certa sabedoria que venho cultivando. Pode ser que daqui a pouco eu mude de idéia e de opinião, mas de uns dois anos pra cá tenho praticado isso e me sinto mais leve, livre e feliz.

Por isso, eu não contaria à minha amiga-irmã. Pelo menos não naquele dia e hora, talvez depois.

Talvez.




12 comentários:

Pâmela disse...

É, pelo menos ela não teria a noite estragada. Mas é difícil decidir. Em uma situação assim, eu provavelmente contaria também. Vai ver falta o tal amadurecimento indígena... Hahahahaha!

Quanto aos seus comentários antigos, pois é, hoje que fui ler o das dúvidas profissionais. Eu não faço estágio não. Aqui é muito difícil conseguir sem indicação. Mas ocnfesso que não fui atrás não. Depois de perder uma bolsa para uma pessoa que não tinha nada a ver com a história (eu fazia estágio voluntário em uma ONG e tinha uma bolsa garantida, mas a responsável repassou para um de seus alunos 'queridos' - da minha sala, inclusive - que nunca tinha nem pisado na ONG) eu não fui mais atrás de nada.
Pode ser comodismo, mas não estou a fim de ficar sendo escraviária de ninguém aqui. Fico ouvindo meus amigos reclamarem dos estágios.
Mas, além de tudo, meu horário de aulas é bem complicado para conseguir vagas - não que eu tenha muitas aulas, mas é que a maioria dos estágios quer de manhã e à tarde e eu estudo à tarde, daí fica difícil.
Enfim, estou pensando em ir para São Paulo tentar pós quando formar (ano que vem!!!). Tenho família lá. Mas não sei, vamos ver. Até lá, muita água vai passar em baixo dessa ponte... Hahahahahahahhaa!

Beijos!
Boa semana! ^^

Socorro Acioli disse...

Gostei muito do texto e do blog.
Voltarei mais vezes.

Monica Loureiro disse...

Valéria...

Entendo perfeitamente a sua posição..Achei o seu texto lindo, amiga....

Voce me emocionou indo no meu Blog, uma pessoa sensível e rara...Seu texto do índio vou passar pra frente....É show !

Quanto a brincadeira, fique a vontade...Mas estou curiosa para saber livros e filmes preferidos.....

Denise do Egito disse...

Val, eu também gostaria de ser avisada. Penso justamente o inverso de você: acharia falta das minhas amigas se não me preparassem para uma situação tão chata. A pior verdade é sempre melhor que uma mentira. Sabendo disso, sua amiga já se posiciona de forma diferente, né?
Beijos e obrigada pelo lindo comentário no Papo Calcinha.

Valéria Martins disse...

Pois é, eu não contei porque:
1) Ela poderia não ver e não ter a noite comprometida, como de fato não viu, só ficou sabendo.
2) O tempo ajeita tudo. Nessa mesma noite ou nos dias a seguir, ela poderia conhecer uma nova pessoa, ou qualquer outra coisa de maior importância poderia acontecer e com isso o tal camarada ficaria mais ainda no passado.
3) Não acho que não contar seja uma "mentira". De maneira alguma! Acho que significa permitir e respeitar o encaminhamento natural que a vida dá às coisas.
4)Já aconteceu de uma amiga me contar – situação muito parecida – e isso estragou a minha noite, e eu nem vi nada. No dia seguinte, esta mesma amiga, que também é amiga-irmã (tenho algumas, graças a Deus) me ligou e pediu desculpas. Ela refletiu e me disse que tinha se arrependido, pois havia interferido numa coisa que poderia se ajustar naturalmente.

Por isso, prefiro fazer que nem o pagode: "Deixa acontecer naturalmente, eu não quero ver você chorar..."
Beijos em todas

Lily disse...

Valéria, sobre seu comentário lá no blog:
Nãaaao, aquele é o João, meu cafa-karma!
O primo foi só curtição! Esse daí é minha paixão de 2 anos já...rs

Da próxima vez q eu falar do João, prometo fazer um post reapresentando-o pra quem chegou no blog depois das minhas aventuras com ele! rs

Bjks

Carolina disse...

Pois é Valéria, é complicada estas situações que acontecem porque a gente fica num fogo cruzado querendo preservar a amiga-irmã e ao mesmo tempo querendo que ela abra os olhos.
Eu não sei o que faria, e já passei algumas vezes por este teu papel, mas é igual a assalto a gente não tem como prever como vai reagir.
Já pensei muito sobre este assunto será que conto ou não conto?
Agora, mudando de saco pra mala, mas ainda no mesmo contexto. Mais uma vez me confesso de que quando homem não está a fim não adianta,né? Aquela velha desculpa "não quero me envolver" é pura balela. Provavelmente já está envolvido, nem que seja em pensamento, com outro alguém...
bjos

Socorro Acioli disse...

Pois é, Valéria, eu coloco a foto bem visível para que eu nunca esqueça que fui aluna do Gabriel García Márquez. Isso me alimenta e dá forças pra seguir.Como você disse, fora do eixo RJ-SP as dificuldades complicam mais ainda. Mesmo assim vou andando, em passos lentos, mas chegando cada vez mais perto.
Beijos!

Denise do Egito disse...

Agora entendi porque vc me falou hoje mais cedo ao telefone que não se trata de mentira. Mal-entendido. Eu me referia a ela pensar que o cara estava também se afeiçoando a ela. Jamais iria dar força para mentiras entre amigas-irmãs... Não, não.
Beijos
P.S. Leia a postagem de hoje à noite

Claudia Goulart disse...

Concordo com sua atitude Valéria.
Ainda mais no Circo Voador, num show desses, provavelmente os dois nem iriam se cruzar, e na verdade eu é que talvez ficasse muito incomodada com a situação tentando preservar a minha amiga de um possível encontro naquela noite.
Não me lembro de nos últimos tempos ter passado por algo assim...
bjs

Pablo Lima disse...

a minhas ascendência indígena sempre me trouxe coisas boas...(:

Amarilis disse...

Gostei muito do seu post. Também tenho tentado interferir menos do curso dos acontecimentos, mas confesso que é um aprendizado árduo, principalmente quando as pessoas são objeto do nosso querer. Belo blog o seu.