domingo, 14 de dezembro de 2014

A alma penada

Minha amiga Adriana, que vive na Espanha, veio ao Rio de Janeiro visitar a família e tirou uma história do fundo do baú, que eu não conhecia: da alma penada.

No final da década de 80, morávamos na região que hoje se chama Baixo Lagoa. Os edifícios de frente para a Lagoa Rodrigo de Freitas, a maioria tem duas entradas: uma pela Rua Alexandre Ferreira e outra pela Borges de Medeiros. Adriana morava em um desses prédios e o porteiro se chamava seu Januário, o Seu Janu.

Certo dia, voltando de uma caminhada, minha amiga resolveu entrar pela portaria da Lagoa, que era menos usada e por isso vivia fechada. Tocou o interfone e esperou o Seu Janu. Lá vem ele, mas pára, estático, e fica olhando para ela.

Toc, toc, toc (no vidro).

- Seu Janu! Abre a porta!

Seu Janu feito estátua.

Nessa hora, Adriana olha para o lado e vê: a alma penada.

- Mas como assim uma alma penada? Como ela era? – pergunto.

- Não dá para explicar...

- Mas como você sabia que era uma alma penada?

- ... A gente simplesmente sabe.

Toc, toc, toc, toc, toc! Adriana esmurra o vidro da portaria fazendo-o balançar. Grita:

- Seu Janu, abre essa porta!

Olha para o lado novamente e ... pluft! Sumiu.

Seu Januário sai do transe e destranca a fechadura. Nenhum dos dois fala nada, Adriana toma a direção da escada e sobe esbaforida.

Até hoje, quando vem ao Rio, dá de cara com Seu Januário, que ainda trabalha no bairro. Outro dia, ele parou para falar com ela.

- Adriana, que bom te ver, há quanto tempo!

Conversa vai, conversa vem, minha amiga não perde a oportunidade:

- E aquele dia em que o senhor me deixou presa na rua junto com a alma penada?

Seu Janu finge que não entende, se despedem, cada um segue seu caminho.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

30 anos esta noite

Mas era ontem!... Acordar antes das seis, engolir o café, pegar o ônibus até o Leblon, saltar em frente à igreja, passar pelo porteiro baixinho com cara de padre, encarar horas e horas de matéria massacrante. Uma, duas semanas de aula em março e as provas começavam, e iam até junho sem parar. Insano.

Meu pai, zeloso com a filha única, deve ter se informado com os amigos e veio com a ordem:

- Vai estudar no Santo Agostinho.

- Quero o Princesa Isabel.

- Santo Agostinho!

No segundo ano ele morreu e me abandonou com a decisão. Eu podia ter mudado de escola, mas já havia feito laços de amizade e resolvi permanecer. Nesse mesmo ano fatídico, fiquei em recuperação pela primeira vez na vida, matemática, e passei janeiro inteiro frequentando aulas as segundas e quartas, para fazer uma prova no final do mês em que tenho certeza que não tirei a nota exigida. Mas me passaram de ano, e isso eu agradeço.

Veio o terceiro ano e as já sofridas aulas aos sábados se transformaram em provas aos sábados. Enquanto os amigos saíam à noite nas sextas, eu tinha que dormir às dez para levantar cedo e encarar avaliações de física, química, biologia... Queria morrer.

O Santo Agostinho coincidiu com um dos períodos mais duros da minha vida. A morte do pai, a doença da mãe, muita solidão. Talvez por isso não guarde lembranças claras e nenhuma foto. As colegas que organizaram a festa dos 30 pediram fotos, registros, o álbum de formatura. Não tenho nada. Não guardei nada. Nem saudade.

Mais tarde, quando um grupo de ex-colegas começou a me chamar para tomar chope, no início, não me sentia confortável. Com o tempo, passei a amar e a valorizar aquele grupo de pessoas bem parecidas comigo, bem formadas, que levam a vida com extrema seriedade e responsabilidade, segurando as barras sem fazer drama. Dizem que a escola não forma, quem molda o caráter é a família. Mas essa forma de encarar a vida é, sim, herança do Santo Agostinho.

Quando já era jornalista, fui entrevistar o antropólogo Everardo Rocha, que escolhi para meu orientador na monografia ao final do curso na faculdade. Contou que seus filhos estudavam no Santo Agostinho.

- Ai que horror, que colégio horrível, eu nunca colocaria meus filhos lá (de fato, não o fiz). Por que fez isso com os pobrezinhos?

- Porque queria formar seres humanos como você.

Assim aprendi também a sentir orgulho de responder à pergunta ‘onde você estudou?’:

- No Santo Agostinho.

Três anos de chumbo, muita pressão e pouco prazer. Três anos de tristeza e sofrimento na esfera pessoal. Mas três anos vezes dez são capazes de transmutar muita coisa. Na peneira do tempo ficaram a Amizade, a Alegria, a certeza de ser capaz.

E a linda festa dos 30 anos – impossível descrever tamanha riqueza, em todos os sentidos – foi o fechamento de um ciclo que começou lá na adolescência e que se encerrou nesta noite em que médicos, engenheiros, dentistas, publicitários, jornalistas, fonoaudiólogos, professores de educação física, profissionais e pais de família, se acabaram de dançar, se atiraram no chão para sair bem nas fotos, viraram crianças novamente, em um rito de passagem que homenageia a instituição que nos preparou tão bem – isso é uma realidade – para a batalha que é a vida.

Obrigada, Colégio Santo Agostinho. Obrigada aos colegas que organizaram a festa dos 30 anos. Muito obrigada.

sábado, 13 de setembro de 2014

Um toque do Pitanguy


Abro o jornal O Globo e me deparo com a foto do Prof. Ivo Pitanguy e a reportagem sobre o lançamento de seu novo livro de memórias, "Viver vale a pena". De dezembro de 2013 a abril de 2014 tive a honra de desfrutar vários momentos na presença desse ser extraordinário, durante a edição de seu livro para a editora Casa da Palavra, pela qual fui responsável. É engraçado como as coisas voltam na vida da gente. Pois aos 9 anos, o Dr. Pitanguy operou a minha testa. Tem um dedo do Pitanguy nesse rostinho aqui.

Sou filha de pais separados e passava os domingos com o meu pai, Justino Martins, em sua casa na Joatinga, Barra da Tijuca. Nessa época, costumávamos ir à piscina no Clube Costa Brava, pois a nossa ainda estava em construção.

O Costa Brava tem uma piscina escavada nas rochas e cheia de água do mar. Meio perigosa, essa piscina. Várias vezes me bati sem querer nas pedras pontiagudas e o machucado era sempre feio. Mas era justamente dessa que o meu pai mais gostava. Enquanto fazia sauna e nadava, eu brincava sozinha ou, com sorte, arranjava uma amiga.

Certo dia, fomos ao clube levando a Carmen, filha do vizinho, mais velha e bem mais esperta que eu. Foi ideia da Carmen se aventurar nas pedras fora dos limites do clube, junto ao mar. Nós não sabíamos que naquele dia a maré estava alta e havia ressaca.

Só me lembro de uma parede de água se levantando na minha frente. A imagem seguinte é a Carmen encostada numa pedra olhando para mim e chorando. O mar me arrastava, mas segurei numas plantas no fundo – por sorte, caí em uma poça de repleta de algas e por isso, não fui tragada pelo oceano. Em seguida, um homem forte apareceu e me carregou nos braços. Não era o meu pai.

Justino lia o jornal calmamente quando (depois costumava contar): “Apareceu um homem com a Valéria no colo, coberta de sangue”. Resumindo: fui levada para a emergência de um hospital público onde radiografaram minha cabeça, concluíram que todos os parafusos ainda estavam no lugar e me costuraram – nove pontos toscos, um para cada ano de vida.

Chegando em casa, minha mãe queria bater no meu pai. Correu atrás dele ao redor da mesa de jantar. Depois que ele foi embora, me deu banho na banheira, lavando com cuidado o meu cabelo para não molhar o curativo. Quando me levantei, a água era cor de sangue.

Passado um ano, Justino me levou ao Pitanguy, que me examinou e me operou, cortando fora a cicatriz tosca e juntando novamente a pele com 23 minúsculos pontos feitos com linha ultra fina.

Ficou ótimo, e assim me tornei parente do Harry Potter.

sábado, 9 de agosto de 2014

A flecha e o arco

Meu filho foi morar com o pai. Ao longo da vida vi isso acontecer várias vezes com minhas amigas separadas e mães de filhos homens. Entendi que era comum: chega uma hora em que os meninos querem conviver com o pai, viver a vida de homem para homem. Geralmente é no final da adolescência, quando o trabalho braçal de criar realizado pelas mães deixa de ser necessário.

Lembro de uma amiga, mãe de um filho único, muito agarrada a ele, a quem preveni:

- Te prepara... Um dia ele vai querer morar com o pai.

- Ah, mas não vai mesmo. Eu não deixo!

- Mas e se for a vontade dele?

- Não quero nem saber! – em seguida mudou de assunto.

Outra, cujo casal de filhos decidiu morar com o pai em uma cidade diferente, falou algo que nunca esqueci:

- Me sinto como uma árvore que foi arrancada e está com as raízes expostas.

Eu mesma morei com meu pai dos oito aos nove anos, numa época em que isso não existia. Era a única criança filha de pais separados na turma da escola e ainda morava com o pai. Ele tinha uma mulher que cuidava bem de mim e era muito boa a convivência com ele quando estava em casa. Mas confesso que me sentia mais confortável junto da minha mãe, apesar de todos os problemas dela, da casa ser pequena e de vivermos mais ‘apertadas’ em todos os sentidos.

A família contemporânea tem infinitos arranjos e isso me parece bom. Mas vou lhes dizer: um filho que sai de casa de repente é algo duro de encarar.

Lembro os versos de Khalil Gibran Khalil:

Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas.
O Arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda a sua força
Para que suas flechas se projetem, rápidas e para longe.
Que vosso encurvamento na mão do Arqueiro seja vossa alegria:
Pois assim como Ele ama a flecha que voa,
Ama também o arco que permanece estável
”.

A saída do redemoinho de tristeza, creio, é nos concentrar em nossa trajetória de flecha (afinal somos filhos também): retomar projetos, ocupar de forma criativa o espaço vazio.

domingo, 1 de junho de 2014

A lição do Amor

A lição do amor vem quando pensamos que já havíamos feito tudo que podíamos por determinada pessoa ou situação. Já abrimos mão de muitas coisas, especialmente nossos conceitos e pré-conceitos. Já dissemos ‘sim’ a algo que, antes, nos julgávamos incapazes de concordar. Já mudamos nossa visão de mundo, esticamos o limite da tolerância, nos esforçamos ao máximo para entender e compreender.

Mas aí a vida apresenta uma demanda a mais e... a gente ‘quebra’. Não no mau sentido, de ser subjugado, mas no sentido descer do pedestal, soltar a corda, deixar a vida fluir com a consciência de que não pode controlar tudo, na verdade, não pode controlar nada, mas ainda tinha uma leve esperança de que fosse possível.

A lição do amor é confiar na vida, no destino, com a certeza de que fez o melhor até agora, deu tudo o que podia – e o que não podia também –, mas é hora de abandonar o barco, deixá-lo seguir com o rio, sejam suas águas calmas ou revoltas, mansas ou turbulentas (não é mais seu domínio), até chegar ao mar, ao oceano.

A lição do amor dói, mas é como a última gota que se espreme de um fruto maduro, a última gota de leite do seio de uma mãe. Por isso, é a porção mais preciosa e doce.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

As penas no caminho

Esse título pode ser associado ao verbo ‘penar’ – se esforçar, se sacrificar. Mas não, estou falando das penas mesmo. De pássaros.

A primeira delas caiu diretamente em minhas mãos. Eu caminhava na Estrada das Paineiras, em meio a Floresta da Tijuca, onde aos domingos o transito é interrompido e as pessoas vão passear. Ouvi um revoar de asas sobre a minha cabeça, olhei para o alto e vi um bando de tucanos em festa. Observei encantada quando uma pequenina pena se desprendeu de um deles e veio planando, devagarinho, até a palma da minha mão.

Interpretei aquilo como um bom sinal, sei lá do que, e trouxe a pena para casa, onde está guardada até hoje.

Em 2009, de férias na Ilha do Marajó, caminhava por uma praia deserta, areia plana a perder de vista, maré baixa, fazendo minhas orações. Ajoelhei-me para beijar o chão e vi, bem na minha frente, uma pena branca de gaivota ou de algum outro pássaro exótico do Pará – porque esse estado é um país dentro do Brasil. Colhi a pena e trouxe para casa, está guardada.

O tempo avança. Estou na Av. Ataulfo de Paiva, Leblon, correndo para um compromisso, faço sinal para um táxi. O automóvel para, eu entro. Sobre o banco de couro preto reluz uma pena furta-cor.

- Moço, o senhor carregou alguém com um pássaro?

O motorista me olha intrigado.

- Não. Por que?

- Veja! – mostro a pena linda, meio azulada, meio roxa-lilás.

O homem se põe a discursar sobre os pássaros, bom entendedor que é. Desfia um rosário de nomes de passarinhos de cuja cauda pode advir a pena. No fim, não chega a conclusão alguma, a não ser que:

- Deve ter entrado junto com algum passageiro.

O fato é que a pena me esperava e a carreguei comigo, está guardada.

Há uma semana, eu descia a rampa de acesso à Vila do Sol aonde a Miss Martha ainda vive - já são nove anos. Sozinha, à noite, sob o céu estrelado, enxergo no chão a minha frente uma grande pena negra. Penso admirada: que pássaro terá uma pena tão grande? E preta? Só pode ser aquele que o Tom Jobim tanto gostava, autor do voo mais lindo, apesar de seus hábitos alimentares funestos: o urubu.

Segundo Sebastião Santos, o jovem catador de lixo retratado no documentário de Vik Muniz, Lixo extraordinário, no universo em que vivia, o lixão de Gramacho, achar pena de urubu era sinal de extrema sorte.

No dia em que a equipe de Vik Muniz chegou ao lixão para eleger os personagens, ele tinha encontrado uma dessas penas. Tião, que inicialmente ia apenas ajudar a produção nos bastidores, acabou protagonista – é ele na imagem que ilustra o poster do filme. A experiência mudou sua vida e ele hoje percorre o Brasil e o mundo dando palestras sobre reciclagem do lixo.

Incrédula, catei a minha pena de urubu e a trouxe comigo. Está no meu quarto, fincada em um potinho com arroz, negra e lustrosa, para me lembrar que a sorte pode mudar a qualquer momento para melhor, sempre.

sábado, 22 de março de 2014

Alçada no ar

A internet está repleta de promoções de viagens baratíssimas fora de temporada. Basta um clique para adquirir a pechincha. Não dá para pensar muito, é pegar ou largar. Mas como vou saber como estará minha vida daqui a quatro, cinco meses?

Aprendo com o Flavio a viajar sem muito compromisso ou planejamento. Ele é dono de pousada e vive entrando nos sites de viagem, checando promoções. Estou no meio do trabalho, as demandas despencando sobre a minha cabeça e lá vem ele: ‘Veja esta promoção... Vamos?’ Naquele momento eu não posso pensar em tirar os olhos do computador, quanto mais viajar... Mas que bom que ele me faz ver que é justamente aí que eu devo parar e olhar junto com ele a bendita promoção.

Assim, quando mal tinha chegado da Europa em novembro do ano passado, compramos uma viagem para as Cataratas do Iguaçu. O Flavio é argentino e adora aquela região. Diz que, quando morrer, as cinzas dele devem ser jogadas na Garganta do Diabo, a maior queda, que fica do lado argentino – o mais bonito, diga-se de passagem. Assim ele chegará ao mar, depois vai evaporar e virar nuvem e chover e voltar ao rio e chegar novamente a Garganta.

No início de março eu estava em um momento especialmente complicado. 2014 trouxe mudanças e exigência de decisões que eu não esperava. Muitos problemas, muita preocupação, muito aborrecimento. Mas, de repente, sou literalmente alçada no ar e aterrisso na natureza selvagem, um reino de água – matéria prima da criação – e abundância capaz de eclipsar qualquer coisa que desvie nossa atenção do aqui e agora.

Durante seis dias eu passeei em meio a florestas, vi animais soltos na natureza – jacaré, tucano, cobra, tartaruga –, respirei ar puríssimo, me exercitei subindo e descendo trilhas, tomei banhos de gotículas de água, dormi, descansei, ri, namorei, comi bem...

Essa é a mágica do relacionamento: aprender com o outro o que nos falta, nos deixar levar, completar, misturar, combinar...

A próxima viagem já foi comprada.