sábado, 22 de março de 2014

Alçada no ar

A internet está repleta de promoções de viagens baratíssimas fora de temporada. Basta um clique para adquirir a pechincha. Não dá para pensar muito, é pegar ou largar. Mas como vou saber como estará minha vida daqui a quatro, cinco meses?

Aprendo com o Flavio a viajar sem muito compromisso ou planejamento. Ele é dono de pousada e vive entrando nos sites de viagem, checando promoções. Estou no meio do trabalho, as demandas despencando sobre a minha cabeça e lá vem ele: ‘Veja esta promoção... Vamos?’ Naquele momento eu não posso pensar em tirar os olhos do computador, quanto mais viajar... Mas que bom que ele me faz ver que é justamente aí que eu devo parar e olhar junto com ele a bendita promoção.

Assim, quando mal tinha chegado da Europa em novembro do ano passado, compramos uma viagem para as Cataratas do Iguaçu. O Flavio é argentino e adora aquela região. Diz que, quando morrer, as cinzas dele devem ser jogadas na Garganta do Diabo, a maior queda, que fica do lado argentino – o mais bonito, diga-se de passagem. Assim ele chegará ao mar, depois vai evaporar e virar nuvem e chover e voltar ao rio e chegar novamente a Garganta.

No início de março eu estava em um momento especialmente complicado. 2014 trouxe mudanças e exigência de decisões que eu não esperava. Muitos problemas, muita preocupação, muito aborrecimento. Mas, de repente, sou literalmente alçada no ar e aterrisso na natureza selvagem, um reino de água – matéria prima da criação – e abundância capaz de eclipsar qualquer coisa que desvie nossa atenção do aqui e agora.

Durante seis dias eu passeei em meio a florestas, vi animais soltos na natureza – jacaré, tucano, cobra, tartaruga –, respirei ar puríssimo, me exercitei subindo e descendo trilhas, tomei banhos de gotículas de água, dormi, descansei, ri, namorei, comi bem...

Essa é a mágica do relacionamento: aprender com o outro o que nos falta, nos deixar levar, completar, misturar, combinar...

A próxima viagem já foi comprada.


domingo, 23 de fevereiro de 2014

Quero ser Branca de Neve

Esses dias me peguei pensando fortemente na Branca de Neve. Flashes do filme que assisti umas 100 vezes quando minha filha era pequena me vieram a mente. O rosto da Branca, estampado em uma camiseta que não cheguei a comprar, também.

Uma bobinha, a Branca de Neve, sempre alheia aos perigos que lhe cercam. Mas com seu jeito ingênuo, sempre sorrindo e cantando, se safa do punhal do caçador, dos sortilégios da madrasta má, dos monstros e fantasmas que lhe perseguem na floresta escura.

No meu livro de entrevistas Encontros com Deus (Mauad, 1997), o escritor e religioso Frei Betto conta que, na juventude, teve uma crise de fé. Foi conversar com o padre que era seu mentor e ele aconselhou: “Betto, se você estivesse perdido em uma floresta escura, continuaria a andar ou esperaria amanhecer?” Ele refletiu e concluiu que era melhor esperar amanhecer.

Branca de Neve tomou conta dos meus pensamentos porque tenho andado na floresta escura sem saber ao certo quando verei a luz. Estou fora do alcance do caçador, insuflado pela madrasta má, mas ainda não sei a extensão dos efeitos de sua maldade. As árvores estendem seus galhos, como se fossem braços, se prendendo às minhas roupas e me impedindo de avançar. Pássaros noturnos voam sobre minha cabeça grasnando, turvando os pensamentos, anunciando dificuldades que rezo para não acontecer.

Quero ser Branca de Neve porque ela simboliza a leveza e a pureza mesmo quando o universo parece tramar contra nós. Chega a ser ignorante, a coitadinha, mas isso em nada diminui o valor de seu caráter pleno de Alegria e Bondade. No filme da Disney, após desabar, ela se levanta e segue seu caminho, faz novos amigos, cria uma nova existência para si junto do Príncipe Encantado.

Bobinha e leve como a Branca de Neve, aguardo o amanhecer.



domingo, 9 de fevereiro de 2014

Balada em Praga - último post sobre a viagem

Perguntei ao recepcionista do hotel onde poderia ir sozinha, num sábado à noite. Ele me mostrou o mapa do centro da cidade e delineou um caminho: “Essa é uma rua com vários bares, vá andando e vai encontrar algum lugar”. OK, me arrumei e saí com a cara e a coragem.

Andando pela tal rua, avistei um grupo animado que se dirigia a uma portinha. Sem pensar, apressei o passo e me juntei a eles. Desceram uma escadaria e fui atrás, livrando-me da assustadora sensação de adentrar um bar sozinha, à noite, sendo mulher, em uma cidade estranha.

O bar era amplo, estava cheio e uma banda ótima tocava covers de rock. O vocalista, com voz gutural, lembrava O Coisa do Quarteto Fantástico, e mandava muito bem cantando sucessos do U2, Oasis, Pearl Jam, Guns and Roses.


Achei um lugar no balcão e pedi uma cerveja, mas logo me convidaram para uma mesa perto do palco, onde os ocupantes eram das mais variados nacionalidades: Nigéria, Japão, Espanha e... Bielorrússia. Este último, já tinha ouvido falar, mas não sabia que era um país (assim como a Macedônia, que vergonha). Depois fui conferir no mapa.

Terminei a noite dançando em meio a um grupo de mulheres na faixa dos 40 anos vestidas como colegiais. Eram cinco e não faço a menor ideia de porque estavam vestidas daquele jeito, porque não falo uma palavra de tcheco e elas não falavam inglês... Mas foram ótimas companhias.

A outra saída noturna foi um dia antes de ir embora e não quis repetir o lugar. Caminhei a esmo pela cidade até encontrar um bar que me pareceu bacana: posters irados nas paredes, música boa e alta. No subsolo, uma boate.

Me ajeitei no balcão e, dois minutos depois, o bar foi invadido por uma horda de jovens italianos. Cerca de 30 rindo, tagarelando. Queriam beber cerveja e o dono do bar exigiu os documentos de todos como prova de que eram maiores de idade. Em pouco tempo uma pilha de passaportes for erguida bem ao meu lado.

Finda a inspeção, o dono do bar chamou um ajudante para tirar chope para todo mundo. O balcão ficou coberto de canecos e os jovens queriam tirar fotos, até o dono do bar embarcou na brincadeira, mostrando o muque após tirar tanto chope. Menos de meia hora depois, tão rápido quanto havia chegado, o grupo desapareceu na boate no subsolo.

Permaneci ainda algum tempo observando as pessoas no bar, curtindo a música, depois também me fui, pois as férias haviam terminando e era hora de voltar para casa.

domingo, 26 de janeiro de 2014

Entrega


Entrega é abrir mão de todo e qualquer poder, até mesmo da ilusão dele.

Enquanto resistimos, temos a sensação de estar na condução das coisas. É nosso dever, nossa responsabilidade, não podemos permitir etc etc etc.

Mas tem horas em que essa atitude não rende efeito, só gera desgaste. É como se o mar se atirasse contra as rochas com o intuito de movê-las. Pode até gastar a rocha, mas ela não vai sair do lugar.

Quando o atrito provoca tanta desarmonia que a vida se torna difícil, é a hora da entrega.

Não é fácil render-se. Dá medo, sensação de perda, derrota ou que será arrastado até se perder. O que será de nós?

Mas vem também um grande alívio. Não é mais meu departamento, estou livre da responsabilidade. Entrego aos céus, à vida, a Deus. Sabendo que os resultados não são mais da minha alçada, sejam eles bons ou ruins.

Entrega requer coragem extrema. A coragem é maior e mais fácil quando se tem fé.

domingo, 12 de janeiro de 2014

Moedas

Páro no primeiro sinal da Av. Princesa Isabel, em Copabacana, e um exército de meninos com garrafinhas com água e sabão se aproxima dos carros. Evito o contato visual para que não venham limpar o vidro do meu carro. Mas, uma olhada e constato: não é que está precisando mesmo de uma limpeza?

Como se lesse meus pensamentos, um menino de uns 14 anos vem na minha direção e, sem pedir licença, joga a bendita água no vidro e começa a ensaboar. Enquanto ele trabalha, busco na bolsa o porta moedas. Está vazio. Busco a carteira. A menor nota é de R$ 10 reais. Na verdade, eu queria dar R$ 2 reais.

Enquanto revolvo a bolsa, o sinal abre, os carros começam a acelerar. Pego a nota de R$ 10 reais e pergunto:

- Tem cinco pra me dar de troco?

Ele mete a mão no bolso e ela volta cheia de moedas.

- Tia, só tenho moeda. Mas me dá essa moral aí. Eu tô sofrendo aqui na rua!

Não fala com tristeza ou comiseração, está sorrindo. Não há tempo para dúvidas:

- Ok, toma.

Entrego a nota e, para minha surpresa, ele me dá o troco. A mão envolta em espuma de detergente solta o punhado de moedas de R$ 0,5 e 0,10 centavos, todas molhadas e ensaboadas, na minha. São tantas que uma parte cai no chão, mas o sinal abriu, os carros buzinam, o guarda lá na frente faz sinais para andarmos logo.

Pego as moedas e jogo no banco do carona.

O carro prossegue, olho as moedas reluzentes ao lado e dou risada: "Vão virar moedas de R$ 1 real, se multiplicar, virar milhões".

E o menino ganhou o dia.

domingo, 22 de dezembro de 2013

O que é realmente importante

“O tempo passa cada vez mais rápido” “O tempo está voando” “Tudo anda tão corrido” Essas frases foram muito ditas e ouvidas em 2013. Mas o que estamos fazendo com nosso tempo?

Deu na coluna do Ancelmo (O Globo): o jornalista Roberto D´Avila perguntou a atriz Fernanda Torres como ela conseguiu se organizar para escrever o surpreendente romance Fim (Companhia das Letras) e ela respondeu: “É que eu não gosto de ir a festas”.

O Dr. Ivo Pitanguy diz em entrevista a Luiz Carlos Lisboa (2003): “Desde sempre, o aspecto social da minha vida foi menor do que parecia ou se comentava. Sempre fui regido pela disciplina séria que aprendi a ter”.

Minha mãe, às vésperas dos 75 anos, faz o comentário: “A vida passa depressa”. Argumento que ainda está passando, não acabou, e ela: “Mas eu pensava que seria jovem para sempre. Havia muito tempo para tudo. Agora sei que não é assim”.

Em setembro participei do workshop do escritor português Gonçalo M. Tavares durante a Feira do Livro de Caxias do Sul. Ele não ensina técnicas de escrita, mas trabalha a criatividade. No final, discorre longamente sobre os sacrifícios que escrever implica. Por exemplo, deixar de estar com as pessoas que amamos. Gonçalo passa todas as manhãs trancado em um escritório, das 8h às 13h, escrevendo. Deixa de desfrutar a companhia da mulher e dos três filhos. Seus pais, quando vem visitá-lo, já sabem que, apesar da saudade, não podem interrompê-lo. Se alguém importante telefona, passam um bilhete por debaixo da porta. Tudo isso porque ele também fez a opção pelo que é realmente importante para si.

Nesse fim de ano, proponho a reflexão: o que é realmente importante para você e a sua vida?

Depois que descobrir, firme um compromisso consigo para abrir espaço na rotina e ter energia para dizer ‘não’ ao que se interpõe no caminho. O tempo passa cada vez mais rápido, tudo está tão corrido... Então, e justamente por isso, vamos ao que interessa.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Praga é uma cidade mágica

Ao ver os letreiros na estação através da janela do trem, vogais com acentos diferentes e grupos de consoantes, pensei: "Tô ferrada". Se na Alemanha a comunicação já tinha sido difícil, na República Tcheca seria pior. Mas que nada. Praga me acolheu como uma senhora gorda e afetuosa que gosta de dar risadas.


Na estação de metrô, eu não tinha moedas para o bilhete que me levaria perto do hotel. Perguntei a uma funcionária e ela balbuciou com gestos: "McDonalds. McDonalds". Entendi que deveria ir ao McDonalds ao lado e comprar algo para trocar o dinheiro - coroas tchecas. Fiz o que ela mandou e deu tudo certo. Pronto. Eu estava em casa. Em Praga, saberia me virar, como se viram os brasileiros em todos os lugares.

Praga é linda, lembra um pouco Paris. O centro histórico é lotado de turistas, e aí lembra um pouco Florença. Mas o mais legal são as histórias. Tudo tem uma história, uma lenda.


Por exemplo, a igreja onde pende, até hoje, em uma cordinha, o braço mumificado do ladrão que tentou roubar o colar de ouro e brilhantes de uma estátua monumental de Santa Ana, toda em madeira, que continua lá. Conta-se que a santa acordou na hora do roubo e segurou o braço do homem. E não houve jeito de soltar, a não ser serrando o braço - do pecador, não da santa. Então, o ladrão se tornou devoto e cuidou da igreja até morrer de velho.


Outra lenda presente em todo lugar é a do Golem de Praga. Conta-se que o rabino criou um golem - criatura de força descomunal - a partir do barro da beira do rio Moldava. Durante muito tempo o Golem ajudou nas colheitas, na construção das casas. Mas quando sua fama ultrapassou as fronteiras e homens poderosos começaram a cortejá-lo, para ajudar nas guerras, o rabino o trancou na torre da sinagoga mais antiga de Praga, onde está até hoje.


Ao me lembrar dos dias que passei na capital Tcheca, sorrio sem querer. Um afago, um descanso, dias alegres e ensolarados na companhia da senhora gorda e afetuosa que gosta de dar risadas.