terça-feira, 2 de junho de 2015

A felicidade

Ela chega de repente e nos pega de surpresa. O tempo pára. O mundo perfeito, completo. Nada falta. Tudo bem que é passageiro. Então, temos que ficar quietinhos e aproveitar. Estar. Conforto. Logo hoje que o dia foi tão tumultuado. Um prêmio. Uma dádiva. Uma mágica.

Respiro e trato de sentir: isso é a felicidade. Um pássaro raro, pousado em um galho bem na minha frente. Cantando, limpando as penas, exercitando as asas. Para, logo voar novamente. Passou... A vida continua. Já não é completa. Algo falta. Algo incomoda. Há sempre mais o que fazer. Mas valeu. O sentimento está ali, ao alcance. Uma joia na memória.

Daqui a pouco, vai me surpreender novamente. Agora já sei como é.

domingo, 24 de maio de 2015

Vovó Sônia

Fiz as contas: na hora em que a vovô Sônia morreu no Brasil nós estávamos no restaurante chinês em Monterrey, Califórnia, às gargalhadas porque a garçonete não falava uma palavra de inglês nem de espanhol, e não conseguíamos chegar a conclusão alguma a respeito do que iríamos comer.

Na manhã seguinte, quando acordamos, veio a notícia. Havia passado por duas cirurgias muito delicadas nos últimos dias e estava sedada, dormindo. Mas naquela noite, ela partiu.

Vovó Sônia esperou a gente viajar para morrer. Sempre teve saúde frágil, estávamos acostumados aos sustos, ao vê-la se internar por uns dias, mas sempre saía e voltava à vida normal: Hortifruti às quintas feiras, quando ia dirigindo seu carro, freando e buzinando alto por qualquer motivo; hidroginástica três vezes por semana, com seu traje de surfista; cinema à tarde com o vovô Bóris.

Saímos para viajar e a deixamos viva. Foi cremada um dia antes do nosso retorno. Entre esses dois extremos, passaram-se 15 dias.

Alegria e tristeza misturaram-se naquela linda manhã em que seguimos viagem a partir de Monterrey pela Highway One. No dia anterior, conseguimos um mapa que indicava as belezas do caminho. Por iniciativa própria, sem que ninguém indicasse, decidimos parar em um parque estadual à beira mar chamado Point Lobos, considerado um refúgio de leões marinhos. Chegamos lá antes das oito, quando o sol ainda começava a esquentar. Caminhamos em silêncio pelas trilhas em meio a campos de margaridas, penetramos num bosque de ciprestes retorcidos, esparramados sob ação do vento. O mar era azul turquesa, azul esmeralda, e lá embaixo víamos os leões marinhos com as cabecinhas para fora d´água, olhando-nos de longe, quietinhos à luz da manhã. Nesse lindo lugar, cada um de nós, a sua maneira, se despediu da vovó, dos almoços que preparava com tanto prazer, dos guefilte fish e kneidales em Hosh Hashaná e Pessach.

Faz muita falta a vovó. O fato de não a termos visto doente, hospitalizada, morta, confere uma sensação de irrealidade ao fato. Melhor assim, talvez.

Abaixo, eu e a Sônia no lançamento da Pausa do Tempo em setembro de 2013.

domingo, 10 de maio de 2015

O anjo

A médica pediu uma tomografia do abdômen e tórax. Raio X completo para enxergar tudo por dentro. Cinco anos sem um check up completo e um histórico familiar, por parte de pai, repleto de mortes por câncer. Meu próprio pai partiu dessa maneira, um jeito bem sofrido de morrer e de assistir alguém morrer. Lembro da minha tia, irmã dele, que morreu de velha (!), dizendo com sotaque gaúcho:

- Te cuida, minha filha, te cuida!...

Lá fui eu fazer o exame. Injetam um líquido branco através de tubos nas veias. A gente se deita espichada, lembrei da minha gata, quando foi castrada. Olhei através da janelinha da clínica e a vi deitada igual a mim, as patinhas amarradas lhe sacavam o útero e ovários. Lembrei do meu pai e da minha avó, lá no céu, e senti muito medo.

Lá vem o resultado. Um dia antes de ir buscar, compartilhei meus pesares com minha amiga Adriana (a mesma do post A alma penada), que rebateu:

- Tá maluca? O anjo não ia deixar...

- Que anjo?

- O nosso anjo, ora. Ele sabe tudo que se passa com a gente. Não ia deixar nada de mal acontecer, você vai ver.

Não tive coragem de abrir o envelope branco, enorme. Deixei direto na portaria da médica. E tome esperar. Quando não aguentava mais, mandei torpedo: ‘Deixei o resultado da tomografia na sua portaria, você viu?’ Quase dez da noite chega a resposta: ‘Amanhã converso com você’.

Um baque. Uma noite em apavorado torpor. ‘Ela encontrou algo. Por que não? É a coisa mais comum do mundo essa doença. Muitos amigos tem ou tiveram. A maioria está viva. Por que não comigo?’ Torvelinho de pensamentos, suores, estômago contraído. Manhã seguinte, ressacada de sono, corri atrás da médica. Finalmente conseguimos falar. Não respondeu antes porque não tivera tempo de ‘analisar’ os resultados.

Descobri que, da mesma forma que a vida marca por fora, marca dentro também. Riscos, rugas, sinais. Esse exame é f... mostra tudo! Meu corpo já não é o de um bebê. Mas, dentre tudo que se viu, nada grave. Nada estranho. Nada com o que se preocupar de verdade.

Ufa!... O anjo... Obrigada, obrigada, obrigada.

sábado, 27 de dezembro de 2014

Relembrar os dias

Dizer que o tempo está passando rápido, que tudo está ‘tão corrido’, já virou chavão. Mas quem parou para pensar nas consequências da correria? A principal delas é que todos estão sofrendo de amnésia. Ninguém se lembra de nada: qual história ouviu aonde, qual caso contou a quem, se já contou ou não. Nossa memória está toda picotada, feito um quebra cabeça antes de montar.

Assustei-me outro dia ao me dar conta de que não me lembrava do que havia feito na segunda-feira. Era sexta. Tentei, tentei e nada.

Resolvi, então, relembrar o que havia feito naquele mesmo dia. Desde a hora em que abri os olhos na cama, os mínimos detalhes: tocar com os pés o chão, a primeira imagem do rosto no espelho banheiro, o pão tostado no café da manhã. Senti um prazer enorme ao recuperar o meu dia e ainda deu um soninho...

Há uns três meses, faço isso toda noite: relembrar com detalhes o que fiz ao longo do dia. Agradeço os momentos bons, reflito sobre os difíceis. Principalmente, sinto-me dona da minha vida. A correria do mundo pode continuar, eu fico. Relembrar os dias reforça o Presente.

Desejo que, em 2015, possamos reforçar nossa Presença. Só assim se vive verdadeiramente.

domingo, 14 de dezembro de 2014

A alma penada

Minha amiga Adriana, que vive na Espanha, veio ao Rio de Janeiro visitar a família e tirou uma história do fundo do baú, que eu não conhecia: da alma penada.

No final da década de 80, morávamos na região que hoje se chama Baixo Lagoa. Os edifícios de frente para a Lagoa Rodrigo de Freitas, a maioria tem duas entradas: uma pela Rua Alexandre Ferreira e outra pela Borges de Medeiros. Adriana morava em um desses prédios e o porteiro se chamava seu Januário, o Seu Janu.

Certo dia, voltando de uma caminhada, minha amiga resolveu entrar pela portaria da Lagoa, que era menos usada e por isso vivia fechada. Tocou o interfone e esperou o Seu Janu. Lá vem ele, mas pára, estático, e fica olhando para ela.

Toc, toc, toc (no vidro).

- Seu Janu! Abre a porta!

Seu Janu feito estátua.

Nessa hora, Adriana olha para o lado e vê: a alma penada.

- Mas como assim uma alma penada? Como ela era? – pergunto.

- Não dá para explicar...

- Mas como você sabia que era uma alma penada?

- ... A gente simplesmente sabe.

Toc, toc, toc, toc, toc! Adriana esmurra o vidro da portaria fazendo-o balançar. Grita:

- Seu Janu, abre essa porta!

Olha para o lado novamente e ... pluft! Sumiu.

Seu Januário sai do transe e destranca a fechadura. Nenhum dos dois fala nada, Adriana toma a direção da escada e sobe esbaforida.

Até hoje, quando vem ao Rio, dá de cara com Seu Januário, que ainda trabalha no bairro. Outro dia, ele parou para falar com ela.

- Adriana, que bom te ver, há quanto tempo!

Conversa vai, conversa vem, minha amiga não perde a oportunidade:

- E aquele dia em que o senhor me deixou presa na rua junto com a alma penada?

Seu Janu finge que não entende, se despedem, cada um segue seu caminho.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

30 anos esta noite

Mas era ontem!... Acordar antes das seis, engolir o café, pegar o ônibus até o Leblon, saltar em frente à igreja, passar pelo porteiro baixinho com cara de padre, encarar horas e horas de matéria massacrante. Uma, duas semanas de aula em março e as provas começavam, e iam até junho sem parar. Insano.

Meu pai, zeloso com a filha única, deve ter se informado com os amigos e veio com a ordem:

- Vai estudar no Santo Agostinho.

- Quero o Princesa Isabel.

- Santo Agostinho!

No segundo ano ele morreu e me abandonou com a decisão. Eu podia ter mudado de escola, mas já havia feito laços de amizade e resolvi permanecer. Nesse mesmo ano fatídico, fiquei em recuperação pela primeira vez na vida, matemática, e passei janeiro inteiro frequentando aulas as segundas e quartas, para fazer uma prova no final do mês em que tenho certeza que não tirei a nota exigida. Mas me passaram de ano, e isso eu agradeço.

Veio o terceiro ano e as já sofridas aulas aos sábados se transformaram em provas aos sábados. Enquanto os amigos saíam à noite nas sextas, eu tinha que dormir às dez para levantar cedo e encarar avaliações de física, química, biologia... Queria morrer.

O Santo Agostinho coincidiu com um dos períodos mais duros da minha vida. A morte do pai, a doença da mãe, muita solidão. Talvez por isso não guarde lembranças claras e nenhuma foto. As colegas que organizaram a festa dos 30 pediram fotos, registros, o álbum de formatura. Não tenho nada. Não guardei nada. Nem saudade.

Mais tarde, quando um grupo de ex-colegas começou a me chamar para tomar chope, no início, não me sentia confortável. Com o tempo, passei a amar e a valorizar aquele grupo de pessoas bem parecidas comigo, bem formadas, que levam a vida com extrema seriedade e responsabilidade, segurando as barras sem fazer drama. Dizem que a escola não forma, quem molda o caráter é a família. Mas essa forma de encarar a vida é, sim, herança do Santo Agostinho.

Quando já era jornalista, fui entrevistar o antropólogo Everardo Rocha, que escolhi para meu orientador na monografia ao final do curso na faculdade. Contou que seus filhos estudavam no Santo Agostinho.

- Ai que horror, que colégio horrível, eu nunca colocaria meus filhos lá (de fato, não o fiz). Por que fez isso com os pobrezinhos?

- Porque queria formar seres humanos como você.

Assim aprendi também a sentir orgulho de responder à pergunta ‘onde você estudou?’:

- No Santo Agostinho.

Três anos de chumbo, muita pressão e pouco prazer. Três anos de tristeza e sofrimento na esfera pessoal. Mas três anos vezes dez são capazes de transmutar muita coisa. Na peneira do tempo ficaram a Amizade, a Alegria, a certeza de ser capaz.

E a linda festa dos 30 anos – impossível descrever tamanha riqueza, em todos os sentidos – foi o fechamento de um ciclo que começou lá na adolescência e que se encerrou nesta noite em que médicos, engenheiros, dentistas, publicitários, jornalistas, fonoaudiólogos, professores de educação física, profissionais e pais de família, se acabaram de dançar, se atiraram no chão para sair bem nas fotos, viraram crianças novamente, em um rito de passagem que homenageia a instituição que nos preparou tão bem – isso é uma realidade – para a batalha que é a vida.

Obrigada, Colégio Santo Agostinho. Obrigada aos colegas que organizaram a festa dos 30 anos. Muito obrigada.

sábado, 13 de setembro de 2014

Um toque do Pitanguy


Abro o jornal O Globo e me deparo com a foto do Prof. Ivo Pitanguy e a reportagem sobre o lançamento de seu novo livro de memórias, "Viver vale a pena". De dezembro de 2013 a abril de 2014 tive a honra de desfrutar vários momentos na presença desse ser extraordinário, durante a edição de seu livro para a editora Casa da Palavra, pela qual fui responsável. É engraçado como as coisas voltam na vida da gente. Pois aos 9 anos, o Dr. Pitanguy operou a minha testa. Tem um dedo do Pitanguy nesse rostinho aqui.

Sou filha de pais separados e passava os domingos com o meu pai, Justino Martins, em sua casa na Joatinga, Barra da Tijuca. Nessa época, costumávamos ir à piscina no Clube Costa Brava, pois a nossa ainda estava em construção.

O Costa Brava tem uma piscina escavada nas rochas e cheia de água do mar. Meio perigosa, essa piscina. Várias vezes me bati sem querer nas pedras pontiagudas e o machucado era sempre feio. Mas era justamente dessa que o meu pai mais gostava. Enquanto fazia sauna e nadava, eu brincava sozinha ou, com sorte, arranjava uma amiga.

Certo dia, fomos ao clube levando a Carmen, filha do vizinho, mais velha e bem mais esperta que eu. Foi ideia da Carmen se aventurar nas pedras fora dos limites do clube, junto ao mar. Nós não sabíamos que naquele dia a maré estava alta e havia ressaca.

Só me lembro de uma parede de água se levantando na minha frente. A imagem seguinte é a Carmen encostada numa pedra olhando para mim e chorando. O mar me arrastava, mas segurei numas plantas no fundo – por sorte, caí em uma poça de repleta de algas e por isso, não fui tragada pelo oceano. Em seguida, um homem forte apareceu e me carregou nos braços. Não era o meu pai.

Justino lia o jornal calmamente quando (depois costumava contar): “Apareceu um homem com a Valéria no colo, coberta de sangue”. Resumindo: fui levada para a emergência de um hospital público onde radiografaram minha cabeça, concluíram que todos os parafusos ainda estavam no lugar e me costuraram – nove pontos toscos, um para cada ano de vida.

Chegando em casa, minha mãe queria bater no meu pai. Correu atrás dele ao redor da mesa de jantar. Depois que ele foi embora, me deu banho na banheira, lavando com cuidado o meu cabelo para não molhar o curativo. Quando me levantei, a água era cor de sangue.

Passado um ano, Justino me levou ao Pitanguy, que me examinou e me operou, cortando fora a cicatriz tosca e juntando novamente a pele com 23 minúsculos pontos feitos com linha ultra fina.

Ficou ótimo, e assim me tornei parente do Harry Potter.