sábado, 24 de maio de 2008

Perdoar é preciso

Saiu hoje no caderno Prosa & Verso do jornal O Globo uma nota informando que esta semana chegam às livrarias os primeiros títulos do selo Fontanar (nome horrível!) – braço da editora Objetiva para a publicação de livros sobre sexualidade, saúde, comportamento e auto-ajuda. A nota destaca Sobrevivi para contar (Left to tell), relato autobiográfico de Immaculée Ilibagiza (http://www.lefttotell.com/), que tive a oportunidade de ler em sua versão original e que é um dos livros que mais envolventes, tocantes e emocionantes de toda a minha vida! Inesquecível e transformador!










A autora narra início, meio e fim do genocídio que aconteceu em Ruanda em 1994, considerado pelos historiadores o mais eficiente de todos os tempos. Em três meses, 800 mil membros da etnia Tutsi foram assassinados pela etnia rival, os Hutus.

O livro começa com uma descrição de Ruanda antes da guerra; a natureza exuberante, o modo de vida de seus habitantes. Ilibagiza fala das particularidades de cada um dos membros de sua família – pai, mãe e três irmãos – de forma afetiva e bem humorada. Ela nos dá um breve resumo do passado histórico de seu país, que nos faz entender a origem dos desentendimentos entre Hutus e Tutsis.

A infância passa rápido, Ilibagiza vai para a faculdade. Num feriado de Páscoa, ela retorna a casa da família e o pesadelo começa. Após três dias sitiados, o pai ordena que ela e o irmão mais novo busquem refúgio na casa de um pastor que mora próximo. Eles vão, mas, chegando lá, o homem obriga que ela mande o rapaz embora, pois não há lugar para ele na casa – só ela pode ficar.

O pastor a esconde em um banheiro junto com outras cinco mulheres, onde não há espaço para se deitar e elas têm que se revezar para ficar de pé ou se sentar. Além disso, são proibidas de emitir qualquer som, pois a família do pastor não sabe que ele está escondendo refugiadas Tutsis.
Sem poder falar, sem receber alimento regularmente e assaltada por temores terríveis, cada vez que grupos de Hutus invadem a casa em busca de Tutsis escondidos, ela encontra a paz rezando, meditando, conversando com Deus. A parte mais substancial do livro é essa: um diário do que se passa internamente nela enquanto escondida no banheiro. Acompanhamos as ondas de medo, raiva, o despertar da consciência de que se ela odiar e quiser matar seus perseguidores, a violência se perpetuará; a descoberta da necessidade de perdoar e os passos para conseguir isso – apesar de parecer impossível.

Quando Ilibagiza finalmente sai do claustro três meses depois, após incontáveis sustos e dissabores, ela usa a fé e a espiritualidade desenvolvidas durante a reclusão para apaziguar a tristeza e a revolta pela morte de sua família, para conseguir um novo emprego e construir uma nova vida.

Sobrevivi para contar é um livro essencialmente sobre o perdão e é muito eficiente no sentido de nos fazer refletir sobre essa questão: existe alguém que precisamos perdoar? Por que não o fizemos ainda? Porque não perdoamos essa pessoa já? Leiam e perdoem! Viver torna-se muito mais leve!... Uhuuuu!!!





4 comentários:

Denise do Egito disse...

Que interessante. Seu texto nos dá vontade de sair correndo e comprar o livro. Quem sabe depois de "Comer, rezar, amar", eu não experimento esse?
Qunato a perdoar, concordo que a gente se sente mais leve.
Beijos

Marcia Regis disse...

Achei bacana - embora, creio, demasiadamente difícil de assumir - a postura dele de perdoar, porque nisso enxergou uma forma de não perpetuar a violência que assolava seu país. E nós, cariocas, vítimas de uma violência cotidiana que em nada fica a dever a outras violências perpetradas mundo afora? Que postura assumir para quebrar o padrão mental social que perpetua a violência? Os novaiorquinos conseguiram a tolerância zero.... e nós? bj M.

Ana Carolina disse...

:)

Queridona, tb adorei sair com vcs! Tenho realmente q botar meu bloco na rua...rs!
Preciso ir numas vernissages, to com vestidinho novo...hahahaha!!!
E quanto ao cabrito...tadinho, vamos deixar o bichinho em paz, sou mais fã do boizinho...rs
beijoca!

Valéria Martins disse...

Marcinha, querida, a Immaculée toma consciência de que é preciso perdoar os assassinos de sua família para que sua própria vida não seja arruinada. A tragédia da qual ela é vítima é tão pesada e nefasta que ela percebe que a única saída é deixar tudo para trás, olhar para frente. E, para isso, é preciso perdoar. Senão, a gente fica arrastando correntes... capiche? Isso vale para todos nós. bjs