quinta-feira, 22 de maio de 2008

Paris é uma festa

"Se você teve a sorte de viver em Paris quando jovem, sua presença continuará a acompanhá-lo por toda a vida, onde quer que você esteja, porque Paris é uma festa móvel".









Andando outro dia pela editora, vi jogados dentro de uma caixa no corredor algumas edições antigas de livros e, entre elas, um livro sobre o qual já li e ouvi falar muito: Paris é uma festa (A moveable feast), de Ernest Heminguay. Esse título já inspirou outros livros de reminiscências sobre a capital francesa como Paris não tem fim, do escritor catalão Enrique Vila-Matas, e Paris não acaba nunca, da psicanalista brasileira Betty Milan, que mora em Paris. Capturei a obra e comecei a lê-la com curiosidade e entusiamo que vinham me faltando nos últimos meses, quando diversos livros passaram pelas minhas mãos sem que eu lesse nenhum deles até o fim.

O livro narra o período em que Heminguay morou em Paris (1921-1926), recém-casado, quando ainda era um jovem jornalista free lancer tentando se tornar escritor. É delicioso, pois narra desde suaves fofocas sobre personalidades de seu círculo de amizades – Gertrude Stein, James Joyce, Ezra Pound , F. Scott Fitzgerald – até sua luta diária para domar as palavras, burilar as frases, construir sua escrita.

Gertrude Stein, por exemplo, era uma mulher faladora e carismática que convidava o casal Heminguay frequentemente a sua residência, mas nunca dirigia a palavra a mulher do autor; era tarefa de sua companheira dar atenção à moça. E só elogiava e defendia outros escritores que falassem bem de sua própria obra.

Sylvia Beach, fundadora da Shakespeare and Company – livraria especializada em livros de língua inglesa que existe até hoje em Paris – era uma generosa comerciante que emprestava livros a escritores iniciantes e duros como Heminguay, sem cobrar e sem preocupar-se se um dia seriam devolvidos.

Em certa hora, ele decide largar o jornalismo para dedicar-se exclusivamente à escrita, mas em contrapartida é preciso abdicar do almoço. Mas isso tem suas vantagens, pois ele sempre visita o pequeno museu dos Jardins de Luxemburgo, em suas andanças pela cidade, e a fome faz com que as cores dos quadros lhe pareçam mais intensas.

Acima de tudo, é um livro sobre lembranças da juventude, mas não tem um pingo de melancolia ou saudosismo. Pelo contrário, inspira quem já teve a oportunidade de ir a Paris a relembrar os momentos vividos nesta que é uma das cidades mais lindas do mundo! Admira saber que se trata de um livro póstumo, publicado após a morte do autor. O ultimo que ele escreveu antes de suicidar-se com um tiro na boca, em 1961.






A seguir um trecho que muito me tocou e que selecionei para compartilhar com vocês:

"Foi uma refeição maravilhosa a que fizemos no Michaud, quando conseguimos entrar. Mas quando terminamos e não sentíamos mais fome, a sensação que nos parecera fome ainda continuava dentro de nós. Continuava quando chegamos ao quarto e, depois de termos ido para a cama e feito amor, ainda estava lá. Quando acordei, com as janelas abertas e o luar nos telhados das casas altas, ainda estava lá. (...) Tinha de me esforçar para compreender o que se passava conosco, mas sentia-me demasiadamente estúpido. A vida tinha-me parecido tão simples naquela manhã quando despertei (...)
Mas Paris era uma cidade muito antiga, nós éramos jovens e nada ali era simples, nem mesmo a pobreza, nem o dinheiro súbito, nem o luar, nem o bem e o mal, nem a respiração de alguém que, deitada ao nosso lado, dormisse ao luar".

Numa recente postagem sobre Qual é o seu maior sonho? algumas pessoas disseram tê-lo realizado; era conhecer Paris... Como foi essa experiência? E os que nunca foram o que imaginam fazer quando essa oportunidade chegar?

7 comentários:

Denise do Egito disse...

Lembro como se fosse ontem: era uma linda e fresca noite de lua cheia. Eu e meu amigo mexicano escolhemos um dos restaurantes no Champs-Elysèes para jantar. Depois de jantarmos e tomarmos vinho (um Beaujolais nouveau) eu olhei pro céu e me senti absurdamente feliz, pois tinha realizado um sonho e estava naquela cidade deslumbrante. Um privilégio que poucos têm a oportunidade de vivenciar. E digo mais: voltarei à cidade, pois voltar lá, passou a ser um novo sonho, ainda mais agora que descobri conversando com parentes velhinhos, que tenho sangue egípcio misturado com francês. Bem que eu sempre achei que Paris combinava comigo. hehehe. Um livro extremamente interessante também, Val, é Memórias de uma moça bem-comportada, de Simone de Beauvoir. Ela fala da infância, da juventude, e de todos os intelectuais da época: Camus, Sartre, Kierkegard... Uma delícia.

Pablo Lima disse...

fofocas sobre joyce? tmb quero, junto com o diário brasileiro de camus!
sobre paris, o meu sonho é passar por outras cidades antes dela...

rosane queiroz disse...

Foi mesmo um sonho conhecer Paris. E ainda no auge de uma paixão! Era verão e o sol se punha quase dez da noite... dias intensos

Fiquei a fim de ler o livro, parece uma delícia...

beijos, rosane

Ana Carolina disse...

Meu sonho de conhecer Paris já foi, certamente, muito maior. Hoje acredito que estou mais perto de realizá-lo, mas não me sinto tão entusiasmada. Acho q a batalha diária pra que esse sonho se concretize um dia foi me deixando cansada, exausta. Será possível?
Acho q tb a realidade, um tanto dura, foi me desanimando. Tanto ainda a conquistar antes de Paris...

Mas acho q um dia, qdo tiver mais próximo, eu consigo me animar novamente. Beijoca!

Valéria Martins disse...

Ana, querida, o sonho está ao seu alcance agora! Viajar ao exterior, especialmente para a Europa, está bem mais barato atualmente por causa do preço baixo do dólar. Basta se programar, poupar e acreditar: isso é para mim, enho esse direito, posso conhecer Paris. E ir!!!

Marcia Regis disse...

Se você teve a sorte de viver em Paris quando jovem, sua presença continuará a acompanhá-lo por toda a vida, onde quer que você esteja, porque Paris é uma festa móvel".

E o que fez tamanho jeito de ser levar um talentoso escritor a se matar....? Sei não... essa festa é boa...? bj M.

Isolda disse...

Eu posso imaginar o que fez com que ele se matasse: O frio, o céu eternamente cinzento, as pessoas invariavelmente em deprê, a falta de guardanapos nos cafés (mesmo os 5 estrelas)os garçons mal humorados, o cheiro das pessoas nos metrôs, enfim; Ele não tinha nada que deixar a América pra se esconder numa "petite ville", onde depois das 22hs não tem mais restaurantes, nem cafés abertos.Adoro Paris, mas morar lá, pra mim, seria morte certa.Parabens pelo blog. Muito legal...