Em recente encontro com a diretora editorial da Nova Fronteira, Isabel Aleixo, tive a dádiva de ouvi-la contar a história da descoberta (por ela mesma) de um dos maiores
best sellers de todos os tempos,
O caçador de pipas.
Por volta de 2002, um amigo comentou com Isabel que sua avó, que lia muito bem em inglês, havia lido um livro do qual gostara muito e não se cansava de elogiá-lo. Isabel pediu o nome do livro e, sempre em busca de novidades, entrou em contato com a editora nos Estados Unidos, a fim de pedir um exemplar para avaliação.
"A gente que trabalha com edição não tem tempo de ler os livros inteiros. A maior parte das vezes, lê
em diagonal. Mas
The Kite Runner, eu li inteiro. Rapidinho. Não dava para ler só algumas partes", conta ela.
O livro constava na lista de mais vendidos do
The New York Times, porém em trigésimo e tal lugar. Isso, porque nos Estados Unidos existem muitos clubes de leitura. Alguém de um desses clubes leu e divulgou entre os colegas. Assim, começou o
boca a boca – fenômeno que dá à luz os
best sellers.
Na primeira reunião com a presidência da editora, após a leitura, Isabel Aleixo apresentou sua aposta. Todos torceram o nariz. Havia motivos para isso: cerca de um ano atrás, extremistas islâmicos haviam derrubado as torres gêmeas; a trama se passava no Afeganistão; o autor era um médico afegão, naturalizado americano, estreante, nunca havia publicado nada antes. Mas ela insistiu e conseguiu um pequeno montante para oferecer ao agente literário responsável pela obra: 2 mil dólares. Quantia irrisória comparando com os dias de hoje, quando os lances começam com 20 a 30 mil dólares.
Para surpresa de todos, ao fazerem a oferta, souberam que havia outra editora brasileira no páreo. Oferecendo 3 mil. A concorrência aumentou o apetite da Nova Fronteira. "Ok, ofereça 4 mil". Isabel foi em frente e a outra editora lançou 5 mil. Enquanto isso, o livro ia galgando posições na lista do
The New York Times: em poucos meses estava em nono lugar.
No fim das contas, a Nova Fronteira levou
O caçador de pipas por 12 mil dólares. Nas reuniões pós-compra, quando se discutia campanha de marketing e imprensa, perguntaram quantos exemplares Isabel achava que seriam vendidos. Chutou, otimista: "uns 40 a 50 mil". Só no Brasil, 1.250.000 exemplares foram vendidos até hoje. E o livro continua nas listas de mais vendidos.
Dois anos depois, Khaled Husseini lança
A Thousand Spledid Suns, seu segundo romance. A Nova Fronteira desembolsa uma baba para comprar os direitos. O livro começa a ser traduzido mas os sites das livrarias brasileiras recebem centenas de pedidos do original em inglês. Cai a ficha: é preciso acelerar a produção da versão em português ou quando o livro sair no Brasil todo mundo já terá lido em inglês! Pressão na tradutora (a mesma de
O caçador, Maria Helena Rouanet, excelente!) e o texto chega à editora numa noite de meio de semana. Toda a equipe do editorial se reúne, dividem os capítulos entre si e viram a noite juntos, terminando a edição quase à meia-noite do dia seguinte. O livro foi preparado em 24 horas!!!
Ainda não li
A cidade do sol, mas a avó dos meus filhos leu e diz que é ainda melhor do que
O caçador de pipas.
Isabel Aleixo deve ter contado essa história uma centena de vezes, para variados tipos de público. Mas ao contá-la novamente, seus olhos brilham, seu tom de voz se eleva, ela treme de emoção e entusiasmo, e contagia os ouvintes. Foi realmente uma dádiva ouvir a história do nascimento de um
best seller. Contada pela própria mãe – a brasileira, no caso.

Vocês leram o livro? Sabem do que eu estou falando? Olha que eu demorei a ler, pois tinha preconceito justamente por ser
best seller. Me rendi na primeira página. Sou a maior fã do Dr. Khaled Husseini:
http://www.khaledhosseini.com/. (Quem tiver preguiça de ler pode pegar o filme no DVD, é bem legal).