quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

A praia inesperada

Diz o escritor afegão Tahir Shah em seu magnífico relato Nas noites árabes (Roça Nova Editora, 2009):

"Uma verdadeira viagem não tem a ver com os destaques com os quais você impressiona os amigos quando volta para casa. Tem a ver com solidão, o isolamento, as noites que passa sozinho desejando estar em outro lugar."

Em Marajó eu não tive momentos exatamente assim, mas houve alguns grandes momentos, coicidentemente vividos nas praias da ilha.

Passamos uma manhã inteira na Praia do Pesqueiro, a 13 km da cidade de Soure. Ficamos muito tempo mergulhados nas águas rasas e semi-doces, tal qual peixes ou sapos, mas em certa hora eu me afastei. Fiz uma longa caminhada sobre a areia firme e aproveitei para acertar as contas com Deus, agradecendo por tudo - sempre - e fazendo as intenções para o ano prestes a começar.



Ao fim da conversa, ajoelhei-me e beijei o chão, sentindo uma camada fina de areia grudar nos lábios. Assim, selei meus compromissos.

Um dia antes de ir embora de Marajó, fomos à Barra Velha, a 3 quilômetros do Soure. Apesar de mais próxima, essa praia é mais vazia por que também é mais selvagem.




Passamos o dia inteiro brincando em um braço largo de mangue que vem serpenteando desde as profundezas da floresta, formando um rio paralelo ao mar. Um desafio a ser transposto para o nosso banho!

No início da manhã a correnteza era forte e nos arrastava com rapidez. Uma emoção! No fim da tarde, a força e o volume da água diminuíram e fomos caminhando juntos por dentro d´água até onde dava pé. Atravessamos o manguezal e fomos dar em outra praia, Barra de Araruna, onde há uns casebres abandonados e só.

A essa altura, o sol havia desaparecido atrás de grossas nuvens e gotas de chuva morna começaram a cair.

Mergulhei no mangue e fiquei só com os olhos fora d´água, observando o mundo em uma bolha de silêncio. Meu filho, enquanto isso, deixava seu corpo afundar na areia, tão fina e enxarcada junto às margens que parecia movediça. Minha filha, por sua vez, ria, corria e pulava sozinha, pulos altíssimos, pernilonga que é.




Mais tarde, de volta ao Rio, perguntei às crianças qual havia sido o momento mais marcante da viagem. O menino respondeu:

- Meu corpo afundando na areia...

A menina:

- Eu pulando naquela praia...

Para mim, foi estar mergulhada no mangue, inteirinha dentro d´água, só os olhos de fora, observando a natureza e sentindo-me parte dela.

A praia de Araruna, inesperada, nos proporcionou uma verdadeira Pausa do Tempo na viagem a Marajó.


9 comentários:

Neide disse...

Val,

Eu e meu marido adoramos lugares assim, calmos, desertos, sem aquele burburinho e muvuca comuns em tempos de férias. A cada post seu aumenta o meu desejo de conhecer este lugar, as praias, os mangues, a calma,a natureza, tudo ao nosso alcance.Maravilha....

Bju

figbatera disse...

Viagem inesquecível!
E bem aproveitada mesmo...

... disse...

Tudo muito bonito. O lugar fotos, texto, reflexões, diálogos e concordo com Neide e Figbatera no desejo de conhecer e na satisfação de ter conhecido.
Acaba sendo Inaceitável conhecer diversos países menos sua casa.

Uma vez, perguntaram ;
Zé na próxima qual animal gostaria de ser?
Não lembro o que respondi, mas hoje penso na possibilidade do búfalo.risos

Algumas vezes uso Nasrudin p/proferir há uma passagem no qual os discípulos participam da festa e um dele recusa um doce, acreditando que o mestre esteja testando p/ver se consegue controlar os desejos.
Surge o mestre e diz :Estás enganado.
(A melhor maneira de dominar um desejo, e vê lo satisfeito).
Pois é...

Gerana Damulakis disse...

Entendi exatamente o que vc escreveu. Tudo está na intensidade: a intensidade de suas sensações, uma grande viagem!

maria guimarães sampaio disse...

essa viagem está me deixando de água na boca

Monica Loureiro disse...

Que delícia, Valéria...Parece que estou vendo tudo isso....

Pablo Lima disse...

maravilhosa a série inteira sobre o local!
e as imagens lembram o filme "casa de areia".
abraços todos!

Mônica disse...

Valéria
Que felicidade!
Voce me fez lembrar que também vejo o mar como uns sos momentos de agradecer a Deus.
Em Buzios também agradeci a Deus pelo ano que terminava e as graças pelo ano que se iniciava.
Somos privilegiadas por sabermos agradecer!
Com carinho Monica

Rafhaael disse...

o mais belo são essas pausas no tempo ou "do tempo". =)

um abraço!