domingo, 17 de janeiro de 2010

É a Matinta Pereira!

A Ilha de Marajó é uma mistura de Índia e África, segundo minha comadre que conhece ambas regiões do planeta. Índia porque os búfalos estão em toda parte: soltos nas ruas, pastando embaixo das árvores, puxando carroças, servindo de montaria...




África, porque as fazendas de gado e búfalos reproduzem as paisagens de savana que predominam naquele continente: pradarias com vegetação rasteira e grupos de árvores aqui e ali.

Visitamos a Fazenda Bom Jesus, onde fomos recepcionados pela própria dona, a veterinária Dra. Eva, uma das pessoas mais influentes e respeitadas de Marajó. Ela gostou de nós e nos mostrou pessoalmente sua propriedade, desde as gracinhas e mimos do búfalo Rambo, adestrado para estar com os turistas...






... até quilômetros e quilômetros de terras, que percorremos em um Land Rover.



As fazendas marajoaras têm uma peculiaridade: possuem vastas áreas alagadas onde os búfalos normalmente se fartam de nadar e refrescar-se...



Porém, segundo Dra. Eva, por causa das mudanças climáticas, a cada ano demora mais a chegar a estação das chuvas, prevista para novembro, no mais tardar dezembro. Por causa disso, vimos áreas completamente secas, com o chão rachado, o que já vinha custando a vida de muitos animais. Uma tristeza!

Imediatamente, comecei a rezar pedindo chuva e fiquei feliz porque na noite do dia 31 choveu forte, contrariando as previsões sinistras de que a época das águas começaria somente em fins de janeiro. Cruzes!

A cidade de Soure, onde ficamos hospedados, é uma graça, quase sem automóveis. Todo mundo anda de bicicleta e cavalo pra lá e pra cá. Os mototáxis são uma opção - nem sempre boa, pois é comum combinarem de ir buscar os turistas numa determinada praia e simplesmente... Esquecer!



Conhecemos o ceramista Carlos, um dos poucos a preparar a cerâmica do modo como os antigos marajoaras preparavam: o torno é movido com os pés e a tinta para colorir vem das cascas e sementes de árvores.






Vistamos o centro de cultura popular, onde as paredes são pintadas com personagens do folclore local: o Pretinho da Bacabeira (correponde ao Saci Pererê ou Negrinho do Pastoreio)...



... o Boto (homem sedutor que encanta as mulheres e as deixa grávidas), a Mulher Cheirosa (versão feminina do Boto, que leva os jovens rapazes a lugares nem sempre desejados)...



... a Boiúna (cobra gigante, espécie de Anaconda) e a mais interessante de todas, porque me era desconhecida: Matinta Pereira. Seu Lázaro, da fazenda Sâo Jerônimo, me explicou:

- Se você está andando à noite e ouve um assobio alto é a Matinta Pereira! Chegando em casa, deve colocar um pouco de tabaco na porta, que ela vem buscar. Se não colocar, ela faz uma maldade!



Antes, eu ouvia a letra da música Águas de março, do Tom Jobim, e não entendia nada!

É peroba do campo, é o nó da madeira
Caingá, candeia, é a Matinta Pereira

Agora eu sei. Viva a Ilha do Marajó! Viva o Brasil!

13 comentários:

Gerana Damulakis disse...

Viva! Tudo lindo, lindo, lindo. Dá muita vontade de ir. Bjo.

Maria Muadiê disse...

Estive em Marajó há 26 anos ...imagine como era.
Linda. Inesquecível.

Claudia Pimenta disse...

oi valéria! ah, que a sua viagem seja maravilhosa! depois conta tudo, viu? bjs, querida!!!

Heloísa disse...

Valéria,
É impressionante a diversidade de costumes, paisagens e culturas nas diversas regiões do Brasil. Nunca imaginei que tivéssemos cidades com animais tão grandes, como os búfalos, circulando livremente pelas ruas.
Deve ter sido uma viagem e tanto.
Beijo.

Babi Mello disse...

Valéria, fiquei com medo dessa lenda! Mas bacana saber o significado da letra do Jobim e Bufalo vc acredita que nunca vi um de perto.
bj! E boa semana

Mônica disse...

Quanta coisa aprendi hoje. Mamae aprecia a arte marajoara. Tem algumas peças que ganhoiu durante sua vida.
Com carinho Monica

Neide disse...

Oi Valeria,

Gostei de saber estas peculiaridades de Marajó, já sabia dos bufálos, mas não que andavam assim por toda parte. Foi bom aprender sobre a lenda da Matinta Pereira e melhor ainda entender a música...

Bjus

... disse...

Ah!se eu pudesse te buscar serena
Eu juro, pegaria sua mão pequena
E juntos vendo o mar
Dizendo aquilo tudo, quase sem falar.


outra ...


Fez-se uma pausa no tempo
Cessou todo meu pensamento
E como acontece uma flor
Também acontece o amor

Assim,
Sucedeu assim,
E foi tão de repente
Que a cabeça da gente
Virou só coração
Não poderia supor
Que o amor nos pudesse prender,
Abriu se em meu peito um vulcão
E nasceu a paixão...

Salve! Salve! Tom Jobim...

É interessante o folclore a crença nos mitos e suas respectivas lendas e sobreviverem atualidade inerente diversas influências inclusive de outros povos.Como tataravô do búfalo do Seu Lázaro é originário da Ásia ou Europa( não sei ao certo ).
Por fim,
Eu me senti um papagaio batucando no volante do carro , p/q além de não entender, não podia imaginar ...

Como sempre ,muito bom o texto...

Boa Tarde.

Gabriela Gonçalves disse...

ahahahah, vou processar Hollywood, como assim pegam o nome do meu blog, esse nome é meu tem mais d 1 ano. humpf...
bjus

figbatera disse...

Muito interessante!

XFX disse...

Que lindo! Parabéns pelo blog. Adoro Águas de março.

Dione disse...

Ah, o Tom é TUDO de bom, né?

Um grande beijo e o meu desejo de que o ano de 2010 seja de muita paz e muitos sonhos realizados e objetivos alcançados, tá?

Bjs...

Pablo Lima disse...

viva jobim!