quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Alquimia

Foi num domingo qualquer desse fim de 2008, sol brilhando, praia cheia, Rio de Janeiro luzindo após muita chuva. Acordei cedo e, cheia de determinação, levei a cabo as tarefas prescritas pela terapeuta para uma “limpeza de fim de ano”.

Em pedaço de papel, escrevi os sentimentos, ou melhor, ressentimentos que ainda teimavam em aparecer de vez em quando, escondidos embaixo de camadas de pele e de gordura, ocultos, mas ainda lá. Tirei-os pra fora e os desnudei diante dos meus olhos, tal qual insetos prontos para serem esmagados. Cortei as frases em tiras e queimei uma a uma, no bico do fogão, dentro de uma grande panela de alumínio. Com intenção. Sobraram cinzas que embrulhei num pedaço de jornal e reservei.

Fui para a sala e escrevi uma longa carta ao pai morto há 25 anos (!), pedindo permissão e bênção para prosseguir no meu caminho e chegar aonde quero. Porque meu pai tinha outros planos para mim e meu irmão e, infelizmente, não conseguiu aprender em vida que a vida dos filhos aos filhos pertence, que somente eles, enquanto indivíduos livres, têm o direito de escolher que carreira seguir, o que fazer ao longo de sua jornada no mundo, custe o que custar. A carta saiu num jorro, duas páginas em dois minutos. Lágrimas rolaram, mas disse tudo o que queria!

Pedalei rumo ao Arpoador, subi as pedras pisando firme em cada passo, fazendo os últimos acertos internos antes de liberar a carga. Parei defronte ao mar, que estava calmo naquele dia, transparente. Respirei fundo e atirei primeiro o jornal com as cinzas: veio uma onda e levou. Li mais uma vez a carta, dobrei bem pequenininha e atirei longe: veio outra onda e levou.

Fui embora aliviada, alegre, com PAZ no coração. E me dei conta de porque nos apegamos a algo que não nos serve mais: medo do vazio e da solidão que pode dele resultar.

O que está vazio, pode ser cheio. Que venha 2009!




9 comentários:

Denise do Egito disse...

Querida Val,
Me emocionei com seu post agora. Talvez o momento seja de mais sensibilidade para mim. Sabe que é uma boa idéia essa de queimar os ressentimentos? E, CLARO, o que está vazio pode ser cheio. E num cantinho aí desse vazio, terá minha amizade.
Esta foto te faz jus, enfim, está dando uma guaribada no blog. Viva 2009!
Beijos

Carolina disse...

Valéria, transformadora a tua atitude. Precisamos esvaziar as gavetas de vez em quando pra então recomeçar.Faxina é algo muito bom e se debruçar em cima da realidade, ficar cara a cara num papo bem honesto entre eu e eu é uma das atitudes maisverdadeiras. Não há meias verdades nem meias mentiras somente nós e a nossa voz que no meio do silêncio grita mais alto em certos momentos.
Parabéns pela atitude. E que venha 2009 cheio de surpresa dentro da caixa diária nos 365 dias.
Feliz 2009 cheio de paz e energia boa!!!

Rosane Queiroz disse...

Oi Valeria
que exercicio libertador!
acho que vou fazer tambem, pode?

beijos, feliz ano novo! RO

Pablo Lima disse...

quanta sabedoria, minha cara!
esmaguemos todos os insetos a tempo (:
obrigado pelo post!

Heloísa disse...

Valéria,
Que 2009 venha, e com ele mil acertos e muita paz.
Beijo

Calabresa disse...

Sem comentário. O post me fez parar pra refletir. Mexeu bem lá no fundo!
Bjsss

Babi Mello disse...

Olá Valéria, lindo o texto. Tem pais que são assim mesmo querem se realizar nos filhos... Mas temos que desde cedo mostrar que temos personalidade e garra de não nos transformar naquilo que Eles querem mas sim no que queremos, Eles podem se zangar, mas depois passa. Gostei muito do ritual que vc fez.
Feliz 2009 e que o seu novo ano seja repleto de realizações.

christine disse...

Querida Va,estou aqui longe e tentei te mandar um e-mail,mas voce nao respondeu(nao sei se e o mesmo).Ai,lembrei do seu blog,te procurei e te achei.Dei de cara com seu ultimo texto, e chorei muito lembrando de voce e de nosso passado.Sei o que cada palavra daquelas significam pra voce.
Te amo minha amiga!Tenho muitas saudades!
Beijos,feliz ano novo!
Chri

Liliane Sastre Nunes disse...

Olá, bem, não sei se é fato isso na sua vidaou apenas um texto, mas o fato é que isso é real pra mim, então, identifiquei-me. Acho que esta na hora de tomar a mesma atitude, colocar no papel o que deveria ter dito e esvaziar minha gaveta.
Abraços.