sexta-feira, 18 de abril de 2014

As penas no caminho

Esse título pode ser associado ao verbo ‘penar’ – se esforçar, se sacrificar. Mas não, estou falando das penas mesmo. De pássaros.

A primeira delas caiu diretamente em minhas mãos. Eu caminhava na Estrada das Paineiras, em meio a Floresta da Tijuca, onde aos domingos o transito é interrompido e as pessoas vão passear. Ouvi um revoar de asas sobre a minha cabeça, olhei para o alto e vi um bando de tucanos em festa. Observei encantada quando uma pequenina pena se desprendeu de um deles e veio planando, devagarinho, até a palma da minha mão.

Interpretei aquilo como um bom sinal, sei lá do que, e trouxe a pena para casa, onde está guardada até hoje.

Em 2009, de férias na Ilha do Marajó, caminhava por uma praia deserta, areia plana a perder de vista, maré baixa, fazendo minhas orações. Ajoelhei-me para beijar o chão e vi, bem na minha frente, uma pena branca de gaivota ou de algum outro pássaro exótico do Pará – porque esse estado é um país dentro do Brasil. Colhi a pena e trouxe para casa, está guardada.

O tempo avança. Estou na Av. Ataulfo de Paiva, Leblon, correndo para um compromisso, faço sinal para um táxi. O automóvel para, eu entro. Sobre o banco de couro preto reluz uma pena furta-cor.

- Moço, o senhor carregou alguém com um pássaro?

O motorista me olha intrigado.

- Não. Por que?

- Veja! – mostro a pena linda, meio azulada, meio roxa-lilás.

O homem se põe a discursar sobre os pássaros, bom entendedor que é. Desfia um rosário de nomes de passarinhos de cuja cauda pode advir a pena. No fim, não chega a conclusão alguma, a não ser que:

- Deve ter entrado junto com algum passageiro.

O fato é que a pena me esperava e a carreguei comigo, está guardada.

Há uma semana, eu descia a rampa de acesso à Vila do Sol aonde a Miss Martha ainda vive - já são nove anos. Sozinha, à noite, sob o céu estrelado, enxergo no chão a minha frente uma grande pena negra. Penso admirada: que pássaro terá uma pena tão grande? E preta? Só pode ser aquele que o Tom Jobim tanto gostava, autor do voo mais lindo, apesar de seus hábitos alimentares funestos: o urubu.

Segundo Sebastião Santos, o jovem catador de lixo retratado no documentário de Vik Muniz, Lixo extraordinário, no universo em que vivia, o lixão de Gramacho, achar pena de urubu era sinal de extrema sorte.

No dia em que a equipe de Vik Muniz chegou ao lixão para eleger os personagens, ele tinha encontrado uma dessas penas. Tião, que inicialmente ia apenas ajudar a produção nos bastidores, acabou protagonista – é ele na imagem que ilustra o poster do filme. A experiência mudou sua vida e ele hoje percorre o Brasil e o mundo dando palestras sobre reciclagem do lixo.

Incrédula, catei a minha pena de urubu e a trouxe comigo. Está no meu quarto, fincada em um potinho com arroz, negra e lustrosa, para me lembrar que a sorte pode mudar a qualquer momento para melhor, sempre.

Um comentário:

Marli Carvalho da Silva disse...

Lindo o seu texto, Valéria. As penas
que encontramos pelo caminho, realmente não são apenas aquelas que a dor traz. Penas, de fato, são sinais de leveza, desapego, descanso.
Gde abraço.