sexta-feira, 18 de março de 2011

Medo da liberdade

- Algum de vocês teria um bom livro sobre o medo para indicar? - perguntou o amigo no meio da reunião, e todos se entreolharam.

- Por que sobre o medo?

- É que estou desenvolvendo um novo projeto para crianças... - de fato, esse colega trabalha com teatro infantil.

Alguns fizeram sugestões e eu indiquei a coleção Quem tem medo, da Editora Scipione, que ajudou minha filha a perder o medo do mar após ter sido literalmente "pescada" por um anzol na praia, aos 4 anos.

- Não - explicou nosso amigo - Eu queria um livro sobre o medo em si. Uma teoria sobre o medo.

Confabulamos e concluímos que esse livro não existe. Um de nós filosofou:

- O mestre tal disse que o medo é causado pela falta de liberdade. Se conquistarmos a liberdade, não haverá medo.

Aí eu intervim:

- Mas as pessoas também tem medo da liberdade. Liberdade demais assusta - e todos me olharam desconfiados...

A propósito dessa afirmação, lembrei de um texto que escrevi em 2009, e que agora sai da gaveta.

No sábado à noite, ela saiu livre, leve e solta, o vestido bem decotado, o certo era usar sutiã, mas ela foi sem sutiã mesmo, os seios livres sob o tecido de algodão.

Tinha ido à praia e estava bronzeada, o certo era usar maquiagem, mas ela não usou, foi de cara lavada mesmo.

Chegando à festa, a amiga arranjou um paquera, o amigo colou com outra e, de repente, ela se viu só. Foi para a pista e dançou, dançou, dançou... Os seios balançando, os cabelos voando, a cara sem maquiagem.

Nesse momento, se deu conta do quanto sempre teve liberdade, a dádiva da liberdade. Porque desde cedo teve que aprender a tomar conta de si, administrar seu dinheiro e isso lhe permitiu lançar-se ao mundo, viajar, fazer o que bem entendesse sem ligar para o que os outros pensam ou dizem.

Deu-se conta, ao mesmo tempo, do quanto é difícil viver a liberdade, porque implica riscos. É mais fácil apegar-se a hábitos, manias, obrigações auto-impostas. Tudo para não se ver a olho nu, não estar exposto ao vácuo que é o daqui a pouco, no virar da esquina.

É preciso muita coragem para viver a liberdade, isso sim. (Ou falta de juízo também!)



8 comentários:

Mônica disse...

Valéria
Que texto espetacular.
Eu tenho a impressão que nunca vi um texto sobre liberdade tão bem colocado. Voce pode fazer um livro infantil sobre medo porque está meio caminho andado.
E vou ser a primeira a ler pois tenho medo de tudo. de tudo mesmo.
Mas outro dia a gente conversa sobre isto.
Minha prima de 5 meses de gestação teve na quinta feira de cepois do carnaval que fazer um ultra som e descobiu que o Eduardo o nene esta com tumor no ( esqueci) e foi operado e agora els estão esperando o rsultodo. Os pais estão tristissimos e todos nós também.
mas já coloquei os tres nas mãos de Deus e ele saberá resolver este problema.
Sem afetar a criança e Tereza. Ela e aldemar são medicos.
Um abraço carinhoso Monica

Valéria Martins disse...

Após publicar o texto, eu me lembrei de uma frase da Clarice Lispector: "Toda liberdade tem que ser conquistada. Pois se me dão da liberdade, estão me mandando ser livre".

Bem, lá atrás me mandaram ser livre. Que fazer? Aí entra a arte de transformar limão em limonada.

Monica Loureiro disse...

Concordo com você: É preciso muita coragem pra viver a liberdade.Vou mandar pra uma amiga minha.

Monica Loureiro disse...

Mudando de assunto,este ano você irá a FLIP ?

CHEIRO DE FLOR disse...

Valéria, adorei o texto. Ultimamente essa palavrinha "Medo" é o que estou sentindo e muito, mais espero melhorar!!!
xeros minha linda.

figbatera disse...

Muito bom, Valéria!
Abs..

Walkyria Rennó Suleiman disse...

Pedido

Sei que você era fã da Gerana, do "Leitora Crítica". Eu e Betina Moraes iniciamos uma campanha pra ela retornar. Entre no meu blog e engrosse essa súplica.
Conto com você.

André disse...

Valéria, penso que o que seu amigo procura está aqui: http://www.livrariacultura.com.br/scripts/resenha/resenha.asp?nitem=2774760&sid=92910518413426282846563646
Esse livro trata de fatos acontecidos na Idade Média e começo da Idade Moderna; mas o vilão que inspira o medo continua a amedrontar muita gente até hoje...


André.