segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

30 anos esta noite

Mas era ontem!... Acordar antes das seis, engolir o café, pegar o ônibus até o Leblon, saltar em frente à igreja, passar pelo porteiro baixinho com cara de padre, encarar horas e horas de matéria massacrante. Uma, duas semanas de aula em março e as provas começavam, e iam até junho sem parar. Insano.

Meu pai, zeloso com a filha única, deve ter se informado com os amigos e veio com a ordem:

- Vai estudar no Santo Agostinho.

- Quero o Princesa Isabel.

- Santo Agostinho!

No segundo ano ele morreu e me abandonou com a decisão. Eu podia ter mudado de escola, mas já havia feito laços de amizade e resolvi permanecer. Nesse mesmo ano fatídico, fiquei em recuperação pela primeira vez na vida, matemática, e passei janeiro inteiro frequentando aulas as segundas e quartas, para fazer uma prova no final do mês em que tenho certeza que não tirei a nota exigida. Mas me passaram de ano, e isso eu agradeço.

Veio o terceiro ano e as já sofridas aulas aos sábados se transformaram em provas aos sábados. Enquanto os amigos saíam à noite nas sextas, eu tinha que dormir às dez para levantar cedo e encarar avaliações de física, química, biologia... Queria morrer.

O Santo Agostinho coincidiu com um dos períodos mais duros da minha vida. A morte do pai, a doença da mãe, muita solidão. Talvez por isso não guarde lembranças claras e nenhuma foto. As colegas que organizaram a festa dos 30 pediram fotos, registros, o álbum de formatura. Não tenho nada. Não guardei nada. Nem saudade.

Mais tarde, quando um grupo de ex-colegas começou a me chamar para tomar chope, no início, não me sentia confortável. Com o tempo, passei a amar e a valorizar aquele grupo de pessoas bem parecidas comigo, bem formadas, que levam a vida com extrema seriedade e responsabilidade, segurando as barras sem fazer drama. Dizem que a escola não forma, quem molda o caráter é a família. Mas essa forma de encarar a vida é, sim, herança do Santo Agostinho.

Quando já era jornalista, fui entrevistar o antropólogo Everardo Rocha, que escolhi para meu orientador na monografia ao final do curso na faculdade. Contou que seus filhos estudavam no Santo Agostinho.

- Ai que horror, que colégio horrível, eu nunca colocaria meus filhos lá (de fato, não o fiz). Por que fez isso com os pobrezinhos?

- Porque queria formar seres humanos como você.

Assim aprendi também a sentir orgulho de responder à pergunta ‘onde você estudou?’:

- No Santo Agostinho.

Três anos de chumbo, muita pressão e pouco prazer. Três anos de tristeza e sofrimento na esfera pessoal. Mas três anos vezes dez são capazes de transmutar muita coisa. Na peneira do tempo ficaram a Amizade, a Alegria, a certeza de ser capaz.

E a linda festa dos 30 anos – impossível descrever tamanha riqueza, em todos os sentidos – foi o fechamento de um ciclo que começou lá na adolescência e que se encerrou nesta noite em que médicos, engenheiros, dentistas, publicitários, jornalistas, fonoaudiólogos, professores de educação física, profissionais e pais de família, se acabaram de dançar, se atiraram no chão para sair bem nas fotos, viraram crianças novamente, em um rito de passagem que homenageia a instituição que nos preparou tão bem – isso é uma realidade – para a batalha que é a vida.

Obrigada, Colégio Santo Agostinho. Obrigada aos colegas que organizaram a festa dos 30 anos. Muito obrigada.

4 comentários:

Felipe Faria disse...

Adorei a nossa festa e poder estar junto com os amigos dessa época. Fico feliz em manter a amizade com muitos do Santo Agostinho e do Canarinhos até hoje.
Muito triste passar por tantos momentos difíceis e dolorosos numa época em que começávamos a nos conhecer e de tantas novidades e mudanças nas nossas vidas.
Lindo texto, muita reflexões e com muitas coisas boas que foram reconhecidas
Beijos e obrigado pela sua amizade.
Felipe Faria

maria disse...

Li seu emocionante texto ,querida amiga!!
Naquela época ... Eu apenas querendo viver, passar de ano, crescer , alcançar independência .... Provavelmente não senti a intensidade dos seus sentimentos tanto os infelizes como os felizes !! Mas de uma coisa tenho certeza , me aproximei de uma menina que usava brincos verdes enormes e lindos e com uma facilidade com História , Geografia , Português e OSPB ( lembram desta matéria? ) que fazia toda diferença nas provas ,rsrsrs
Uma grande amiga ,com uma linda trajetória , uma grande mulher !! Muitos puderam revê-la nesta maravilhosa festa de 30 anos de formados , e eu tenho a sorte de volta e meia poder bater altos papos com ela !!
Esta festa nos trouxe muitas recordações e alegrias!! Foi maravilhoso !! Que outras festas e muitos encontros e reencontros aconteçam sempre !!
Beijo grande para a grande familia CSA !!

Heloísa disse...

Valéria,
Fazia tempo que eu não passava por aqui.
Achei seu texto lindo e me emocionei.
Beijo.

Monica Loureiro Jorge disse...

Lindo esse post!