terça-feira, 7 de setembro de 2010

Não pode desistir

Leio o perfil do empresário brasileiro Sérgio Habib, 52 anos, maior distribuidor de automóveis da marca Citroën no mundo, e fico sabendo que antes de se tornar "o Midas do setor automotivo", como é chamado na reportagem, afundou duas vezes. A primeira quando abriu uma rede de fast food em São Paulo, que fechou em menos de um ano. A segunda após investir R$ 15 milhões em uma sociedade com o estilista Ocimar Versolato, que faliu. Fico pensando: "E se, após o segundo fracasso, ele tivesse desistido?"

Assisto ao bom filme de rock The Runaways, disponível em algumas locadoras, sobre a trajetória de Joan Jett, cantora e compositora de músicas que tocam até hoje nas rádios como I love rock n roll e Crimson and Glover. Fico sabendo que antes de estourar ela naufragou no auge do sucesso de sua banda anterior, The runaways, porque a vocalista - uma junkie de 15 anos, simplesmente saltou fora do barco. Joan foi ao fundo do pântano, mas... Ressurgiu com os Blackhearts. Pensei que ela fosse desistir.

Recebo um telefonema de uma amiga me contando que a filha, que namorou durante anos um cara que não trabalhava e a menosprezava, terminou o relacionamento e vai se casar com outro: um jovem estrangeiro, no Brasil para fazer mestrado. As famílias já se conheceram e o casório será em maio do ano que vem, com vestido branco e tudo. Sabendo o quanto essa amiga sofreu e rezou para (ela é catoliquíssima), brinco:

- Mas o tanto que tu rezaste para isso acontecer, hein? Demorou, mas foi!

E ela:

- Pois é, Valéria. As coisas demoram, mas acontecem. Temos que rezar e esperar. Não pode é desistir!

O poder da síntese dessa minha amiga é incrível...

Abaixo, Joan Jett and The Blackhearts: I love rock n roll!


quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Ler devagar

Após slow food e slow travel, slow reading. Trata-se de um movimento iniciado por intelectuais europeus que propõe ler devagar e atenciosamente um livro inteiro, do início ao fim.

Pensei que somente quem trabalha no mercado editorial andasse lendo vários livros ao mesmo tempo, sem terminar nenhum. Fazemos isso porque o trabalho exige e se fôssemos ler cada um dos livros que nos chega às mãos, não faríamos mais nada. Mas fico sabendo, através de artigo no caderno Sabático, do Estado de S. Paulo, publicado sábado passado, que se trata de uma epidemia.

O fato é que internet encolheu a nossa capacidade de concentração e leitura de longos textos. Claro como água. Apesar do slow reading, acho que não tem como voltar atrás. Me dá uma tristeza: as novas gerações serão capazes de ler os grandes - e volumosos - clássicos? Crime e Castigo, Grande sertão veredas, Os miseráveis? Um amigo diz: "Mas esses, pouca gente leu até hoje, e vai continuar sendo assim". Será?

Em março desse ano, subi ao Bairro Alto, em Lisboa, debaixo de chuva torrencial, em busca de uma livraria que todo mundo indicou: Ler devagar. Cheguei lá em cima e, sozinha na paisagem desolada encoberta de nuvens e água, descobri que a livraria havia mudado de lugar. Pior: nenhum dos comerciantes a quem perguntei sabia a nova localização da livraria.

Voltei para casa molhada e desenxabida. Sinal dos tempos.


sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Mulheres, comida e Deus

Estou lendo um livro muito sincero, de auto-ajuda, da norte-americana Geneen Roth: Mulheres, comida e Deus (Ed. Lua de Papel). Ela fala às mulheres que têm problemas graves de peso e vivem na montanha-russa de engordar e emagrecer. Não vivo esse drama, mas aprecio muito os bons livros de auto-ajuda porque, invariavelmente, servem não somente a um propósito mas se aplicam a outras áreas da vida com a intenção de nos fazer melhorar.

Entre muitos assuntos, Geneen fala sobre a importância de viver o sofrimento - quaisquer que sejam os motivos - até o fim, com a cara e a coragem. O impulso de fugir do sofrimento causa as obssessões: por comida, sexo, drogas. Porém, isso é um comportamento mecânico - no passado, quando éramos crianças pequenas e muito vulneráveis, fomos feridos e desenvolvemos mecanismos de fuga, porque não havia outra forma de se defender. O problema é que crescemos e não descartamos esses mecanismos, e eles ficam se repetindo continuamente. Como evitar? É preciso aprender a encarar a vida como ela é, sem o filtro das obssessões.

Difícil? Sim. Mas a grande vitória é perder o medo de sofrer. Saber que, apesar das piores tragédias, conseguimos sobreviver. Isso nos faz plenos de potência, vitoriosos, invencíveis. Já pensaram?

E aí ela vai mais longe, ensinando que o fio condutor que nos faz atravessar os piores momentos e ainda ser capazes de colar os cacos e seguir adiante é algo chamado... Deus.


segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Um lugar

É lá que eu quero ficar
Quando esta etapa acabar
E a outra começar

Lá onde a quietude e a paz remetem à Eternidade
Onde o vento quase não sopra
E quando o faz, é suave.

Lá onde o tempo pára
E podem passar os anos e os séculos
E tudo continua igual
Embora em constante movimento.

Lá onde o silêncio é o tamborilar das gotas nas folhas
O canto distante de um pássaro
E um regato correndo longe das vistas da gente.

Lá onde se vê a dança silenciosa das árvores
E uma moça sentada na grama em profundo contato consigo.

E um jarro com lindas rosas começando a murchar
Como que para nos lembrar
De que a qualquer momento
Pode ser hora dessa etapa acabar
E a outra começar

É lá que eu quero ficar.



quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Valeu, André!

Tinha acabado o evento na Off Flip, os escritores com os quais trabalho davam autógrafos e, vendo que estava tudo em ordem, me levantei para ir embora. Surgiu na minha frente a capa de um livro e ouvi a voz:

- Eu também quero um autógrafo. Você pode autografar para mim?

Levantei os olhos e vi um homem de uns quarenta anos, pele e cabelos claros, óculos, sorriso simpático no rosto:

- Sou leitor do seu blog.

Entre surpresa e atordoada, perguntei:

- Mas onde você conseguiu isso? (O livro Encontros com Deus foi publicado em 1997, ou seja, séculos!)

- Na internet - ele respondeu, como se fosse óbvio. Para mim, não era.

Começamos a conversar e eu soube que ele se chama André, mora em Taubaté e vai à FLIP todos os anos, aproveitando para passear pela região antes e depois do evento.

- Lembro de um post em que vc contou que deu de cara com uma cobra aqui perto, na Praia do Sono.

Eu não me lembrava desse post.

Assinar um livro na FLIP, onde sou conhecida como agente e produtora - e não como escritora -, teve um significado especial para mim. Me fez recordar um sonho que andava esquecido mas precisa se realizar. Afinal, meu desejo de infância é ser escritora.

Escrevi uma dedicatória bem bonita para o André. Desenhei um sol sorrindo, como gosto de fazer. Agradeci a ele o sorriso, a presença, a lembrança que serviu para me acordar. Agradeço agora, novamente: valeu, André!


sábado, 14 de agosto de 2010

Tudo o que acontece é para o bem

Eu esperava o meu amor mas a chuva era terrível, e as pessoas diziam que seria impossível chegar. Estava inquieta, angustiada. Minha amiga disse:

- Se acalme, porque tudo o que acontece é para o bem.

A frase reverberou nos meus ouvidos... Sim, eu sei que sim, muito embora alguns fatos sejam tão terríveis que não conseguimos enxergar ou compreender como possam ser para o bem. Minha amiga continuou:

- Tudo o que aconteceu na minha vida até hoje, eu descobri o por quê. Só tem uma coisa que eu não entendi o por quê até hoje.

Calei e olhei fundo nos olhos delas, porque eu sei o que é: o casamento desfeito às vésperas, por causa da morte do noivo, em um acidente de automóvel. Continuei:

- Mas você já pediu a Deus que lhe mostre o por quê? Que lhe faça entender?

Ela pensou por um momento.

- Não.

- Então, faça isso. Peça. Eu pedi e fui atendida.

Contei a ela como, recentemente, entendi porque o meu pai morreu quando eu tinha 17 anos e as consequências disso em minha vida - para o mal, inicialmente, e depois para o Bem.

- Você tem razão, vou fazer isso. Vou rezar e pedir - disse a minha amiga.

Ainda não estive com ela depois dessa conversa.


domingo, 8 de agosto de 2010

William e Isabel






Existem momentos na vida que são de coroação. Não a coroação de nós mesmo, mas de uma situação, um estado de coisas. São momentos em que a gente sabe que, depois de trabalhar e trabalhar, chegou lá. É meio que um milagre, porque vamos tateando às cegas no caminho, tantas são as bifurcações e escolhas que temos que fazer. Mas, de repente, a coisa chega.

Foi assim na sexta-feira, dia 6 de agosto, quando esperava no palco, escondida atrás das cortinas da Casa de Cultura de Paraty, junto com William Gordon e Isabel Allende, combinando em que ordem iríamos nos sentar, quem ia começar, quem ia falar o que. Após passar duas noites sem dormir, eu estava estranhamente calma.

Era segredo que Isabel também ia participar. Eu já sabia, mas não podia contar, sob pena de os fãs dela invadirem a Casa de Cultura. E o foco da mesa era o William. Deu tudo certo. Fiz uma breve introdução e algumas perguntas pré-preparadas, e o casal respondeu fazendo mil brincadeiras, tipo:

Isabel - "Eu escrevo 14 horas por dia e ele 11 minutos. Tudo o que ele faz, só consegue fazer por 11 minutos. Inclusive o amor".

William - "Ela tem sorte, pois a maioria das pessoas faz amor em 6 minutos. 11 minutos é muito tempo".

Logo abri para as perguntas do público e todos perguntaram à vontade, sendo que o foco continuou sendo, o tempo todo, o William e seu livro O anão. No fim, estava todo mundo feliz! As pessoas, na fila de autógrafos, sorriam de orelha a orelha. William, todo satisfeito e Isabel, feliz por ver seu amado feliz.

Passou alguém por mim e escutei: "Essa mesa valeu a FLIP".

E eu senti como se uma enorme coroa dourada e brilhante pairasse sobre a Casa de Cultura de Paraty, como um ovni, coroando aquele momento. Pode parecer conversa de maluco, mas não é não: a felicidade reinou e fomos todos coroados. Amén!