Não ligo para roupa, maquiagem, joias... Meus luxos são viajar e ir a shows de rock. Para isso eu economizo e invisto.
Realizei no dia 21 de setembro, véspera da entrada da Primavera, um sonho que julgava perdido: assistir a banca de rock The Who no Brasil. Primeira vez deles na América Latina em mais de 50 anos de carreira. Os caras estão com 77 anos. Pensei que ou eles ou eu morreríamos sem que isso acontecesse.
Eu acredito em milagres. Passei a adolescência sonhando assistir o Led Zeppelin, que já havia acabado com a morte do baterista John Bonham. Passaram os anos e assisti Robert Plant num Hollywood Rock. Todas as músicas do Led bem ali na minha frente, com sua voz original. Chorei e agradeci. Passaram mais alguns anos e vieram juntos, Page e Plant. Se houvesse espaço, eu me atiraria no chão da Praça da Apoteose para agradecer mais uma vez. Depois disso, ainda tive a oportunidade de conhecer Jimmy Page, tirar foto com ele e ganhar um autógrafo em meu CD Led Zeppelin IV: To Valéria, Whole Lotta Love. Sou uma abençoada.
Agora, The Who. Que eu ouvia na vitrola que herdei de meu pai. Que minha mãe me levou para assistir no cinema aos nove anos – obrigada, mamãe – e eu ‘fechei’ ali com o rock n´roll, encantada com o garoto surdo, bobo e cego chamado Tommy. Que ouço até hoje, assim como Quadrophenia, meu preferido.
Noite perfeita. Roger Daltrey com uma super-voz girando o microfone no ar como sempre fez. Pete Towsend muito jovial largando o braço em riffs eternos. Eles valorizam e expõem sua trajetória em imagens belíssimas no telão por trás da banda: Londres dos 60´s and 70´s, garotos terninho e lambreta, show caseiro deles com uns 16 anos e a galera já dançando até o chão. Fotos de várias épocas com tratamento psicodélico. Lindas imagens de natureza tratadas e remodeladas para combinar com as musicas. Um tratado pacifista na sequencia de Quadrophenia que termina com Love, Reign O'er Me. Tudo que eu sonhava e muito mais. Obrigada.
Only love
Can make it rain
The way the beach is kissed by the sea
Only love
Can make it rain
Like the sweat of lovers
Laying in the fields.
Love, Reign o'er me
Love, Reign o'er me, rain on me
Only love
Can bring the rain
That makes you yearn to the sky
Only love
Can bring the rain
That falls like tears from on high
Love Reign O'er me
On the dry and dusty road
The nights we spend apart alone
I need to get back home to cool cool rain
I can't sleep and I lay and I think
The night is hot and black as ink
Oh God, I need a drink of cool cool rain
sexta-feira, 22 de setembro de 2017
domingo, 20 de agosto de 2017
Monsieur e Madame Adelman
“Com um pouco de humor e imaginação, é incrível o que passa entre duas pessoas”. Essa frase de Madame Adelman sintetiza o filme Monsieur e Madame Adelman, uma tragicomédia inusitada sobre tudo o que pode acontecer – e eventualmente acontece – em um casamento.
“E foram felizes para sempre” é a enigmática frase que encerra os contos de fadas. Ao longo da vida ouvia comentários de gente mais velha e experiente – ‘É aí que começa a verdadeira história’ – e ficava intrigada. Pensava que uma vez juntos, o casal desfrutava uma vida feliz e harmoniosa até o fim dos tempos. O índice elevado de separações leva a crer que não é bem assim. Não estamos presentes no dia a dia de um casal, mas para que se separem algo muito grave deve acontecer.
Monsieur e Madame Adelman mostra justamente a intimidade entre duas pessoas que se amam muito. Em um relacionamento esse amor se estica, deforma, alarga, esquenta, esfria. Impressionante e assustador. Principalmente porque nos reconhecemos nos papéis – quer dizer, eu me reconheci agora que trilhei uma boa parte da estrada e conheço algo da vida.
Não é um filme contra o casamento – apesar da lavação de roupa suja que presenciamos. É a favor do amor e do relacionamento, com todos os desafios, dores e prazeres que este possa suscitar. Transformador. Ainda mais nesses tempos de intolerância e impermanência, quando tudo muda com um clique, inclusive as relações, quiçá, amorosas.
“E foram felizes para sempre” é a enigmática frase que encerra os contos de fadas. Ao longo da vida ouvia comentários de gente mais velha e experiente – ‘É aí que começa a verdadeira história’ – e ficava intrigada. Pensava que uma vez juntos, o casal desfrutava uma vida feliz e harmoniosa até o fim dos tempos. O índice elevado de separações leva a crer que não é bem assim. Não estamos presentes no dia a dia de um casal, mas para que se separem algo muito grave deve acontecer.
Monsieur e Madame Adelman mostra justamente a intimidade entre duas pessoas que se amam muito. Em um relacionamento esse amor se estica, deforma, alarga, esquenta, esfria. Impressionante e assustador. Principalmente porque nos reconhecemos nos papéis – quer dizer, eu me reconheci agora que trilhei uma boa parte da estrada e conheço algo da vida.
Não é um filme contra o casamento – apesar da lavação de roupa suja que presenciamos. É a favor do amor e do relacionamento, com todos os desafios, dores e prazeres que este possa suscitar. Transformador. Ainda mais nesses tempos de intolerância e impermanência, quando tudo muda com um clique, inclusive as relações, quiçá, amorosas.
domingo, 11 de junho de 2017
Tempo leva, tempo traz
Sábado, 13 de abril de 2005
Hoje ele finalmente saiu de casa. Combinamos que eu iria sair com as crianças para ele vir buscar suas coisas. Foi horrível. No teatro, encontramos um coleguinha do Arthur, cujo irmão mais velho tem a mesma idade do Anderson. A mãe convidou os dois para irem a casa dela assistir filmes e brincar, e eles toparam. Tive que voltar sozinha e, quando cheguei, ele já tinha saído com tudo.
Fui até o quarto, abri a porta do armário – vazio. Abri todas as portas dos armários, só as minhas coisas continuavam no exato lugar, a parte dele, completamente oca. Foi-se tudo: ternos, camisas, cuecas, documentos, objetos. Não restou nada. Fiquei muito tempo agachada no chão, chorando. Olhando aquele vazio. É assim que minha vida está agora.
Segunda-feira, 15 de abril de 2005
Hoje o Arthur ficou doente, com febre. Não queria levantar da cama e, quando pus a mão na testinha dele, estava queimando. Não tem sintomas de gripe nem nada. Virose. Ou então, falta do pai. Esse é o meu palpite.
Roberto veio ontem e conversamos os quatro. Deixei ele falar. Explicou que papai e mamãe ainda se gostam, mas como amigos, e que por isso decidimos morar em casas diferentes, mas continuamos juntos. MENTIRA! FILHO DA PUTA! SAFADO! Mentindo para os filhos. Um dia eles vão saber a verdade! Se ele mesmo não contar, eu vou contar!
Por hora preciso me controlar porque os meninos não tem nada a ver com isso. São dois anjinhos inocentes. Tenho que preservar a inocência deles. Não vou jogá-los contra o pai, muito embora ele mereça isso. Bosta!
Terça-feira, 10 de maio de 2005
Hoje eu fui demitida. Quando as coisas estão ruins, podem ficar ainda piores. Não devemos reclamar. Pois é. Estou arrasada.
Fui chamada na sala do diretor, ele me perguntou o que eu fazia e eu não soube responder, comecei a chorar. Ele me ofereceu um lenço de papel e mandou que eu voltasse para minha sala. Ele sabe que eu me separei. No final do dia recebi o email agradecendo todos os serviços prestados etc. Puta merda! Não é possível, separação e demissão com um mês de diferença. A pensão terá que aumentar. Roberto vai ter que se virar. Senão, vamos passar fome.
Domingo, 20 de junho de 2005
Voltei do clube com as crianças e o Roberto ligou e pediu para pegá-los, e que dormissem lá com ele. Eu deixei, pelo bem das crianças, acho bom que fiquem com o pai sempre que ele quiser. Mas, de repente, me vi sozinha em pleno domingo à tarde. Situação tenebrosa: o dia caindo, a rua sem nenhum movimento, o barulho do jogo de futebol no vizinho. Tive vontade de dar um tiro na cabeça – se eu tivesse uma arma. Não teria coragem de fazer isso. Mas o sentimento era esse.
Sábado, 9 de julho de 2015
Fui mexer na minha pasta de guardados. Encontrei uma foto de quando a gente era adolescente, eu e Roberto: ele com cara de recém-nascido, eu magra feito um vara-pau. A gente se conhece há quase 20 anos. Parece que foi outro dia que ele me mandou o bilhetinho na sala de aula: ‘quer namorar comigo?’ Eu já esperava ansiosa e respondi ‘sim’, e desenhei um coraçãozinho e uma florzinha ao lado. Quanta coisa passou desde então. Quanta vida. Durante mais de dez anos fomos muito felizes. A viagem à Paris. As minhas duas gestações. O nascimento das crianças. Eu me sentia completa. Não precisava de mais nada. Agora, por mais que eu tente, não consigo entender como algo que era tão bom e tão lindo, pode se transformar em outra coisa tão feia e nojenta. Sinceramente, hoje eu tenho nojo do Roberto.
Domingo, 8 de setembro de 2005
Ontem eu finalmente consegui sair à noite com as amigas, fomos dançar forró. Eu conheci o Cássio em transei pela primeira vez em quase um ano! Trepada maravilhosa! Tesão! Não acredito como pude ficar tanto tempo sem sexo. Na verdade, eu estava assexuada. Era tanta tristeza, tantos problemas, que me apaguei. Mas agora renasci. Fênix! Chega de saudade! Trocamos telefones, se ele não ligar, eu vou ligar. Decidi!
O merda do Roberto está com a pensão atrasada pelo terceiro mês consecutivo. Tudo bem que eu estou me virando com o negócio das saladas delivery em casa, uma confusão danada na minha cozinha, mas está dando certo. Estou ganhando dinheiro, ele sabe, e por isso está de sacanagem. Vou à justiça! Essa é outra decisão.
26 de fevereiro de 2006
Após muito tempo sem escrever, um motivo especial: hoje o Roberto voltou para casa. O armário vazio, que não cheguei a preencher, novamente com as coisas dele. Precisa ver a alegria dos meninos. Não paravam de pular agarrados as pernas dele. Fiquei quieta no meu canto. Aceitei ele de volta, mas já disse: terá que me reconquistar.
Difícil descrever como me sinto... Mas tenho que reconhecer: em paz.
Exercício sobre o "Tempo" para a Oficina Literária de Ivan Cavalcanti Proença
Hoje ele finalmente saiu de casa. Combinamos que eu iria sair com as crianças para ele vir buscar suas coisas. Foi horrível. No teatro, encontramos um coleguinha do Arthur, cujo irmão mais velho tem a mesma idade do Anderson. A mãe convidou os dois para irem a casa dela assistir filmes e brincar, e eles toparam. Tive que voltar sozinha e, quando cheguei, ele já tinha saído com tudo.
Fui até o quarto, abri a porta do armário – vazio. Abri todas as portas dos armários, só as minhas coisas continuavam no exato lugar, a parte dele, completamente oca. Foi-se tudo: ternos, camisas, cuecas, documentos, objetos. Não restou nada. Fiquei muito tempo agachada no chão, chorando. Olhando aquele vazio. É assim que minha vida está agora.
Segunda-feira, 15 de abril de 2005
Hoje o Arthur ficou doente, com febre. Não queria levantar da cama e, quando pus a mão na testinha dele, estava queimando. Não tem sintomas de gripe nem nada. Virose. Ou então, falta do pai. Esse é o meu palpite.
Roberto veio ontem e conversamos os quatro. Deixei ele falar. Explicou que papai e mamãe ainda se gostam, mas como amigos, e que por isso decidimos morar em casas diferentes, mas continuamos juntos. MENTIRA! FILHO DA PUTA! SAFADO! Mentindo para os filhos. Um dia eles vão saber a verdade! Se ele mesmo não contar, eu vou contar!
Por hora preciso me controlar porque os meninos não tem nada a ver com isso. São dois anjinhos inocentes. Tenho que preservar a inocência deles. Não vou jogá-los contra o pai, muito embora ele mereça isso. Bosta!
Terça-feira, 10 de maio de 2005
Hoje eu fui demitida. Quando as coisas estão ruins, podem ficar ainda piores. Não devemos reclamar. Pois é. Estou arrasada.
Fui chamada na sala do diretor, ele me perguntou o que eu fazia e eu não soube responder, comecei a chorar. Ele me ofereceu um lenço de papel e mandou que eu voltasse para minha sala. Ele sabe que eu me separei. No final do dia recebi o email agradecendo todos os serviços prestados etc. Puta merda! Não é possível, separação e demissão com um mês de diferença. A pensão terá que aumentar. Roberto vai ter que se virar. Senão, vamos passar fome.
Domingo, 20 de junho de 2005
Voltei do clube com as crianças e o Roberto ligou e pediu para pegá-los, e que dormissem lá com ele. Eu deixei, pelo bem das crianças, acho bom que fiquem com o pai sempre que ele quiser. Mas, de repente, me vi sozinha em pleno domingo à tarde. Situação tenebrosa: o dia caindo, a rua sem nenhum movimento, o barulho do jogo de futebol no vizinho. Tive vontade de dar um tiro na cabeça – se eu tivesse uma arma. Não teria coragem de fazer isso. Mas o sentimento era esse.
Sábado, 9 de julho de 2015
Fui mexer na minha pasta de guardados. Encontrei uma foto de quando a gente era adolescente, eu e Roberto: ele com cara de recém-nascido, eu magra feito um vara-pau. A gente se conhece há quase 20 anos. Parece que foi outro dia que ele me mandou o bilhetinho na sala de aula: ‘quer namorar comigo?’ Eu já esperava ansiosa e respondi ‘sim’, e desenhei um coraçãozinho e uma florzinha ao lado. Quanta coisa passou desde então. Quanta vida. Durante mais de dez anos fomos muito felizes. A viagem à Paris. As minhas duas gestações. O nascimento das crianças. Eu me sentia completa. Não precisava de mais nada. Agora, por mais que eu tente, não consigo entender como algo que era tão bom e tão lindo, pode se transformar em outra coisa tão feia e nojenta. Sinceramente, hoje eu tenho nojo do Roberto.
Domingo, 8 de setembro de 2005
Ontem eu finalmente consegui sair à noite com as amigas, fomos dançar forró. Eu conheci o Cássio em transei pela primeira vez em quase um ano! Trepada maravilhosa! Tesão! Não acredito como pude ficar tanto tempo sem sexo. Na verdade, eu estava assexuada. Era tanta tristeza, tantos problemas, que me apaguei. Mas agora renasci. Fênix! Chega de saudade! Trocamos telefones, se ele não ligar, eu vou ligar. Decidi!
O merda do Roberto está com a pensão atrasada pelo terceiro mês consecutivo. Tudo bem que eu estou me virando com o negócio das saladas delivery em casa, uma confusão danada na minha cozinha, mas está dando certo. Estou ganhando dinheiro, ele sabe, e por isso está de sacanagem. Vou à justiça! Essa é outra decisão.
26 de fevereiro de 2006
Após muito tempo sem escrever, um motivo especial: hoje o Roberto voltou para casa. O armário vazio, que não cheguei a preencher, novamente com as coisas dele. Precisa ver a alegria dos meninos. Não paravam de pular agarrados as pernas dele. Fiquei quieta no meu canto. Aceitei ele de volta, mas já disse: terá que me reconquistar.
Difícil descrever como me sinto... Mas tenho que reconhecer: em paz.
Exercício sobre o "Tempo" para a Oficina Literária de Ivan Cavalcanti Proença
domingo, 12 de março de 2017
Dia que termina
Mais um dia está terminando e nunca mais vai voltar. Deitada no sofá observo as sombras avançarem pela casa preenchendo espaços, denunciando vazios, ocupando-os, desvelando-os. Em cada vazio algo que não foi dito ou feito, o passado cheio de buracos, calombos, terreno acidentado, sem vegetação, terra remexida e infértil, refugo de mineração.
Entre os dejetos, a surpresa ao atravessar a rua ontem. Nas feições irreconhecíveis um quê indecifrável e inalcançável, nada concreto, um fio vindo lá do fundo, de muito muito longe para o agora. Um tremor, um susto: era ele. Devastado, a barriga proeminente, cabelos brancos. Mas no olhar surpreso e vivo, a certeza.
Levanto devagar, o gato se aproxima miando, esfregando-se em minhas pernas finas e descarnadas, manchadas de sol, meias emboladas nos tornozelos. Deixo cair uma das mãos e faço-lhe cafuné nas orelhas. O céu está cor de rosa, principiando o lilás. Quando criança, gostava do céu assim – “é calor que vem vindo” dizia minha avó, e eu me alegrava por mais um dia para brincar no jardim.
Olho ao redor. À luz do crepúsculo a sala parece uma fotografia em sépia, os enfeites cada um em seu lugar, as plantas imóveis com se estátuas fossem. Não tem vento. Até o gato se sentou e parece um bibelô. Há que me levantar, ver algo para comer, assistir a novela... Mas o tempo parou e naquele olhar ao atravessar a rua, o assombro.
Nós dois deitados juntos, muito juntos no chão, a mão dele entre as minhas pernas. Foi parar ali sem que eu percebesse, quando dei por mim já estava encaixada e era tão perfeita, suave e confortável que não tive coragem de me esquivar, sequer de protestar. Principiei a mexer-me devagarinho, ajudando-o quase sem força, quase sem nada, a afinar meu instrumento mais raro e delicado, como se um músico muito hábil fosse.
A irmã dele de papo com a amiga na cama, TV ligada, bolo no forno, todo mundo fingindo que fazia uma coisa que na verdade era outra. Mas o tempo e o espaço eram ofertados a nós – a privacidade, o respeito de fingir não ver, e deixar-nos estar e sentir até o mundo virar e desvirar do avesso, a TV, a irmã, o papo, o bolo – tudo desaparecer e reaparecer menos importantes. E mão dele lá, molhada e firme, pulsando feito um coração no centro de mim.
Estremeço. É quase noite. Mais um dia está terminando e nunca mais vai voltar.
(Exercício para a Oficina Literária Ivan Proença)
Entre os dejetos, a surpresa ao atravessar a rua ontem. Nas feições irreconhecíveis um quê indecifrável e inalcançável, nada concreto, um fio vindo lá do fundo, de muito muito longe para o agora. Um tremor, um susto: era ele. Devastado, a barriga proeminente, cabelos brancos. Mas no olhar surpreso e vivo, a certeza.
Levanto devagar, o gato se aproxima miando, esfregando-se em minhas pernas finas e descarnadas, manchadas de sol, meias emboladas nos tornozelos. Deixo cair uma das mãos e faço-lhe cafuné nas orelhas. O céu está cor de rosa, principiando o lilás. Quando criança, gostava do céu assim – “é calor que vem vindo” dizia minha avó, e eu me alegrava por mais um dia para brincar no jardim.
Olho ao redor. À luz do crepúsculo a sala parece uma fotografia em sépia, os enfeites cada um em seu lugar, as plantas imóveis com se estátuas fossem. Não tem vento. Até o gato se sentou e parece um bibelô. Há que me levantar, ver algo para comer, assistir a novela... Mas o tempo parou e naquele olhar ao atravessar a rua, o assombro.
Nós dois deitados juntos, muito juntos no chão, a mão dele entre as minhas pernas. Foi parar ali sem que eu percebesse, quando dei por mim já estava encaixada e era tão perfeita, suave e confortável que não tive coragem de me esquivar, sequer de protestar. Principiei a mexer-me devagarinho, ajudando-o quase sem força, quase sem nada, a afinar meu instrumento mais raro e delicado, como se um músico muito hábil fosse.
A irmã dele de papo com a amiga na cama, TV ligada, bolo no forno, todo mundo fingindo que fazia uma coisa que na verdade era outra. Mas o tempo e o espaço eram ofertados a nós – a privacidade, o respeito de fingir não ver, e deixar-nos estar e sentir até o mundo virar e desvirar do avesso, a TV, a irmã, o papo, o bolo – tudo desaparecer e reaparecer menos importantes. E mão dele lá, molhada e firme, pulsando feito um coração no centro de mim.
Estremeço. É quase noite. Mais um dia está terminando e nunca mais vai voltar.
(Exercício para a Oficina Literária Ivan Proença)
terça-feira, 1 de novembro de 2016
O fim do amor
A literatura é pródiga na produção de obras que espelham o fim do amor: Todas as histórias de amor terminam mal (Luciano Trigo, Ed. Sulina, 1990), O único final feliz para uma história de amor é um acidente (João Paulo Cuenca, Cia das Letras, 2010), para citar dois títulos que me vem à memória.
O fim do amor é como fim de Carnaval: lixo por todos os lados, pedaços de fantasias rasgados no chão. Resta se recolher e chorar porque a folia acabou.
A grande pergunta é: como algo que começou tão bem pode terminar tão mal? Como algo que começou tão lindo pode terminar tão feio?
Não tem explicação. O único consolo é que não estamos sós. Por mais que tudo corra de maneira civilizada, mesmo que o casal se torne amigo, o fim de algo que se imaginava perfeito e sagrado é sempre catastrófico, dramático, uma hecatombe na vida pessoal.
Então, por que alguns insistem em buscar o Amor? Não basta todo desprazer? Não basta o sofrimento que parece não ter fim?
Creio que a causa é a certeza atávica, que ainda resiste em cada um de nós, de que a sina do ser humano é ser feliz.
Eu acredito nisso.
Mas nós atrapalhamos tudo.
O fim do amor é como fim de Carnaval: lixo por todos os lados, pedaços de fantasias rasgados no chão. Resta se recolher e chorar porque a folia acabou.
A grande pergunta é: como algo que começou tão bem pode terminar tão mal? Como algo que começou tão lindo pode terminar tão feio?
Não tem explicação. O único consolo é que não estamos sós. Por mais que tudo corra de maneira civilizada, mesmo que o casal se torne amigo, o fim de algo que se imaginava perfeito e sagrado é sempre catastrófico, dramático, uma hecatombe na vida pessoal.
Então, por que alguns insistem em buscar o Amor? Não basta todo desprazer? Não basta o sofrimento que parece não ter fim?
Creio que a causa é a certeza atávica, que ainda resiste em cada um de nós, de que a sina do ser humano é ser feliz.
Eu acredito nisso.
Mas nós atrapalhamos tudo.
domingo, 7 de agosto de 2016
O doutor Pitangão
Durante cerca de seis meses – de dezembro de 2013 a abril de 2014 – tive o privilégio e a honra de conviver com o doutor Ivo Pitanguy: a Oasys Cultural foi contratada pelas editoras Casa da Palavra e Rara para a edição de seu livro de memórias e me encarreguei da tarefa.
Pitanguy já me conhecia desde os 12 anos, quando operou minha testa após um acidente no Clube Costa Brava, relatado no post Um toque do Pitanguy. Ele se lembrava não somente disso, mas também da minha mãe, a Miss Martha, que trabalhou com ele como instrumentadora cirúrgica em mil novecentos e antigamente. Soma-se a isso a amizade com meu pai, que transformava seus feitos em páginas e páginas na revista Manchete. Enfim, várias referências. Mas nem por isso era fácil a nossa relação. Difícil e durão, o Dr. Pitangão, como me acostumei a chamá-lo não em sua presença, mas na de meus filhos, quando chegava em casa exausta das reuniões com ele.
Para começar, eu não podia chegar um minuto atrasada que lá vinha bronca: que eu não estava levando o trabalho a sério, que assim não era possível... Passei a sair de casa com mega antecedência. Na época, eu estava em litígio com o plano de saúde da Miss Martha e isso demandava um bocado de energia mental e emocional. Um dia em que estava especialmente nervosa e chateada, cheguei ao consultório dez minutos atrasada e começou a bronca. Dessa vez o profissionalismo foi por água abaixo: comecei a chorar. E o Pitangão:
- Valéria, o que foi? O que foi?
Eu não conseguia falar. E ele:
- Eu não quero te torturar, entende?
Esse Pitangão...
Após me acalmar, expliquei o que andava acontecendo e, a partir daí, começamos a nos entender melhor. Toda reunião tinha o momento do lanche, quando me oferecia chá e chocolates da Rolex. Sim, porque várias vezes havia sido jurado do Prêmio Rolex de Empreendedorismo e a empresa não se cansava de mandar-lhe mimos desde a Suíça.
Assim era a vida do Pitanguy: todas as honras, todas as glórias, tudo de mais lindo e maravilhoso, tudo do bom e do melhor que existe no mundo, esse homem provou. Fazia questão de deixar claro, mas não expunha nada além do necessário. Nenhum nome de celebridade, rei ou rainha que tenha operado. E olha que ele operou muitos. Parecia imunizado contra o vírus da vaidade. Super consciente da finitude e da morte, confidenciou:
- No dia em que eu morrer, tudo isso aqui acaba (sobre a clínica, centro de pesquisas e centro cirúrgico criados por ele, no bairro carioca de Botafogo). Já deixei ordens. Mas não vamos falar sobre isso.
Em certo ponto do trabalho, as reuniões passaram a ser em sua casa, em uma mesa junto da piscina. Eu adorava esperá-lo porque aproveitava para admirar os quadros. Um verdadeiro Louvre a casa do Dr. Pitangão. Na noite em que terminamos a edição do livro ele abriu um vinho especial de sua adega e ficamos papeando e bebericando até tarde. No fim das contas, eu amei trabalhar com o Dr. Pitanguy!
Por fim, um diálogo inesquecível. Olhando seu rosto marcado de rugas aos 90 anos, comentei:
- O senhor mesmo nunca se operou, não é, doutor Pitanguy?
Ele me olhou de um jeito diferente, olhar de médico:
- E nem você.
E completou:
- Nós nos suportamos, não é mesmo, Valéria?
Pitanguy já me conhecia desde os 12 anos, quando operou minha testa após um acidente no Clube Costa Brava, relatado no post Um toque do Pitanguy. Ele se lembrava não somente disso, mas também da minha mãe, a Miss Martha, que trabalhou com ele como instrumentadora cirúrgica em mil novecentos e antigamente. Soma-se a isso a amizade com meu pai, que transformava seus feitos em páginas e páginas na revista Manchete. Enfim, várias referências. Mas nem por isso era fácil a nossa relação. Difícil e durão, o Dr. Pitangão, como me acostumei a chamá-lo não em sua presença, mas na de meus filhos, quando chegava em casa exausta das reuniões com ele.
Para começar, eu não podia chegar um minuto atrasada que lá vinha bronca: que eu não estava levando o trabalho a sério, que assim não era possível... Passei a sair de casa com mega antecedência. Na época, eu estava em litígio com o plano de saúde da Miss Martha e isso demandava um bocado de energia mental e emocional. Um dia em que estava especialmente nervosa e chateada, cheguei ao consultório dez minutos atrasada e começou a bronca. Dessa vez o profissionalismo foi por água abaixo: comecei a chorar. E o Pitangão:
- Valéria, o que foi? O que foi?
Eu não conseguia falar. E ele:
- Eu não quero te torturar, entende?
Esse Pitangão...
Após me acalmar, expliquei o que andava acontecendo e, a partir daí, começamos a nos entender melhor. Toda reunião tinha o momento do lanche, quando me oferecia chá e chocolates da Rolex. Sim, porque várias vezes havia sido jurado do Prêmio Rolex de Empreendedorismo e a empresa não se cansava de mandar-lhe mimos desde a Suíça.
Assim era a vida do Pitanguy: todas as honras, todas as glórias, tudo de mais lindo e maravilhoso, tudo do bom e do melhor que existe no mundo, esse homem provou. Fazia questão de deixar claro, mas não expunha nada além do necessário. Nenhum nome de celebridade, rei ou rainha que tenha operado. E olha que ele operou muitos. Parecia imunizado contra o vírus da vaidade. Super consciente da finitude e da morte, confidenciou:
- No dia em que eu morrer, tudo isso aqui acaba (sobre a clínica, centro de pesquisas e centro cirúrgico criados por ele, no bairro carioca de Botafogo). Já deixei ordens. Mas não vamos falar sobre isso.
Em certo ponto do trabalho, as reuniões passaram a ser em sua casa, em uma mesa junto da piscina. Eu adorava esperá-lo porque aproveitava para admirar os quadros. Um verdadeiro Louvre a casa do Dr. Pitangão. Na noite em que terminamos a edição do livro ele abriu um vinho especial de sua adega e ficamos papeando e bebericando até tarde. No fim das contas, eu amei trabalhar com o Dr. Pitanguy!
Por fim, um diálogo inesquecível. Olhando seu rosto marcado de rugas aos 90 anos, comentei:
- O senhor mesmo nunca se operou, não é, doutor Pitanguy?
Ele me olhou de um jeito diferente, olhar de médico:
- E nem você.
E completou:
- Nós nos suportamos, não é mesmo, Valéria?
domingo, 17 de julho de 2016
Itacoatiaras do Ingá (último post sobre a viagem à Paraíba)
Na chegada a João Pessoa, vi no aeroporto fotos de atrações turísticas da Paraíba, dentre elas, uma pedra com inscrições lindíssimas, lembrando a arte de Tarsila do Amaral. Dizia a legenda: Itacoatiaras do Ingá. Comentei com minha anfitriã, a escritora paraibana Marília Arnaud – que assina a apresentação do livro que reúne textos deste blog – e ela imediatamente tratou de se informar para realizar o meu desejo de conhecer a ‘pedra pintada’ (significado de Itacoatiara, termo indígena).
Ao final da jornada em Campina Grande, partimos para Ingá, cidade às bordas do sertão. Chegando lá, encontramos o parque fechado – muito embora a internet dissesse que estaria aberto de oito da manhã às quatro da tarde, aos domingos. Era perto do meio dia. Uma casa de família, a cerca de 200 metros, funcionava como restaurante a todo vapor. Fomos até lá e informaram que o secretário de turismo, Vavá da Luz, tinha ido almoçar na cidade e mandara fechar o parque. Pedi o telefone da autoridade e toca a ligar, ligar, e nada. Vavá não atendia. Na falta de alternativa – e tendo que embarcar de volta para casa dentro de algumas horas –, encontramos o jeitinho brasileiro de entrar: por um buraco na grade do parque. Lá fomos nós, Marília na frente. Parahyba é terra de mulher valente, sô!
A Itacoatiara fica em meio ao leito de um rio muito bonito, onde pastam cavalos e bois. É uma pedra larga com a forma de um lagarto. As inscrições tomam toda uma encosta plana e vertical, como se fosse um mural. O incrível é que não se trata de pinturas rupestres, como na maioria dos sítios arqueológicos, mas de gravações em baixo relevo na pedra. Sulcos arredondados, suaves. Formas tão modernas quanto a arte da Tarsila. Vislumbro um lagarto, um abacaxi, um sol. Junto de nossos pés, estrelas. A constelação de Orion, explicam mais tarde.
Nisso vem chegando Ana Bela, amiga da Marília, com um casal.
- Olha aqui, esse moço é da polícia, agora vocês expliquem como conseguiram entrar...
Brincadeirinha...
Um rapaz autorizado por Vavá veio e abriu o portão do parque. Nem se incomodou com a nossa invasão, deu risada – Ó meu Brasil! Contou que arqueólogos do mundo inteiro já estiveram ali estudando as inscrições. Alguém disse que datam de 5 mil antes de Cristo. Ninguém sabe com que técnica ou instrumentos foram feitas. Um museu fechado – esse ninguém tinha a chave – continha ossos de tatu e preguiça gigantes e de toxodonte (espécie de anta pré-histórica), além de pedaços de artefatos antigos, provavelmente das pessoas que ali viveram. O guardião do parque conta ainda sobre a ‘pedra do sino’:
- Uma pedra comprida e achatada, que a gente batia nela e fazia barulho igual a um sino.
- Cadê ela?
- A enchente levou...
Em 2004 e 2006 o rio subiu – algo que não acontece mais – e levou a pedra sonora. Procuraram, procuraram e não encontraram. Cheia de mistérios essa Itacoatiara do Ingá.
O passeio terminou no tal restaurante familiar, degustando galinha de capoeira (galinha caipira) e carne de sol com farofa e cerveja. A conta: R$ 20 reais.
Fui embora com dó no coração, porque a festa já ia começar, sanfoneiros se arrumando para tocar um forró. Convite do dono:
- Voltem na quinta feira (dia de São João).
Voltarei sim, em breve.
Abaixo, eu Anabela (esq.) e Marília em frente à Itacoatiara do Ingá.
Ao final da jornada em Campina Grande, partimos para Ingá, cidade às bordas do sertão. Chegando lá, encontramos o parque fechado – muito embora a internet dissesse que estaria aberto de oito da manhã às quatro da tarde, aos domingos. Era perto do meio dia. Uma casa de família, a cerca de 200 metros, funcionava como restaurante a todo vapor. Fomos até lá e informaram que o secretário de turismo, Vavá da Luz, tinha ido almoçar na cidade e mandara fechar o parque. Pedi o telefone da autoridade e toca a ligar, ligar, e nada. Vavá não atendia. Na falta de alternativa – e tendo que embarcar de volta para casa dentro de algumas horas –, encontramos o jeitinho brasileiro de entrar: por um buraco na grade do parque. Lá fomos nós, Marília na frente. Parahyba é terra de mulher valente, sô!
A Itacoatiara fica em meio ao leito de um rio muito bonito, onde pastam cavalos e bois. É uma pedra larga com a forma de um lagarto. As inscrições tomam toda uma encosta plana e vertical, como se fosse um mural. O incrível é que não se trata de pinturas rupestres, como na maioria dos sítios arqueológicos, mas de gravações em baixo relevo na pedra. Sulcos arredondados, suaves. Formas tão modernas quanto a arte da Tarsila. Vislumbro um lagarto, um abacaxi, um sol. Junto de nossos pés, estrelas. A constelação de Orion, explicam mais tarde.
Nisso vem chegando Ana Bela, amiga da Marília, com um casal.
- Olha aqui, esse moço é da polícia, agora vocês expliquem como conseguiram entrar...
Brincadeirinha...
Um rapaz autorizado por Vavá veio e abriu o portão do parque. Nem se incomodou com a nossa invasão, deu risada – Ó meu Brasil! Contou que arqueólogos do mundo inteiro já estiveram ali estudando as inscrições. Alguém disse que datam de 5 mil antes de Cristo. Ninguém sabe com que técnica ou instrumentos foram feitas. Um museu fechado – esse ninguém tinha a chave – continha ossos de tatu e preguiça gigantes e de toxodonte (espécie de anta pré-histórica), além de pedaços de artefatos antigos, provavelmente das pessoas que ali viveram. O guardião do parque conta ainda sobre a ‘pedra do sino’:
- Uma pedra comprida e achatada, que a gente batia nela e fazia barulho igual a um sino.
- Cadê ela?
- A enchente levou...
Em 2004 e 2006 o rio subiu – algo que não acontece mais – e levou a pedra sonora. Procuraram, procuraram e não encontraram. Cheia de mistérios essa Itacoatiara do Ingá.
O passeio terminou no tal restaurante familiar, degustando galinha de capoeira (galinha caipira) e carne de sol com farofa e cerveja. A conta: R$ 20 reais.
Fui embora com dó no coração, porque a festa já ia começar, sanfoneiros se arrumando para tocar um forró. Convite do dono:
- Voltem na quinta feira (dia de São João).
Voltarei sim, em breve.
Abaixo, eu Anabela (esq.) e Marília em frente à Itacoatiara do Ingá.
domingo, 10 de julho de 2016
Nordeste de antanho
Ainda em Campina Grande, o Sítio São João foi o lugar onde me senti mais perto daquilo que ansiava: o Nordesde de antigamente, que conheci em viagens na época da faculdade, quando me mandava de ônibus (48 horas) para o Ceará e percorria praias hoje famosas como Jericoacoara, Canoa Quebrada e outras.
Ingressamos em uma grande área de terra batida onde uma cidade cenográfica reproduz o Nordeste de antanho. Casinhas de pau a pique sem forro e sem portas, camas tortas, prateleiras toscas, fotos antigas nas paredes, banheiro do lado de fora. Nada disso existe mais, dizem. Hoje todas as casas tem seu banheiro construído, toda pequena cidade tem um mercadinho com iogurte, leite em caixas etc. Melhor, com certeza. Mas que bom que conheci o Nordeste de antigamente. Este ainda vive dentro de mim nas melhores lembranças da juventude.
Na chegada a João Pessoa, em voo tardio – mais barato – ao pisar fora do avião reconheci o cheio das madrugadas em que acordávamos antes do sol nascer, e pegávamos carona até a rodoviária para embarcar em seis a oito horas de viagem até praias longínquas e inexploradas como a própria Jericoacoara. Não havia pousadas e nos hospedávamos nas casas das famílias, dormindo em redes na sala, comendo arroz, feijão, macarrão e peixe todo dia, e tendo que sair ao relento para ir ao banheiro, onde uma galinha encarapitada entre as taipas cacarejava assustada denunciando o nosso xixi noturno. O cocô era em um areal mais distante, onde cavávamos um buraco e depois enterrávamos nossos despojos. Pagávamos nossa estadia com escambo – talco, ou ‘pó branco’, era dos bens mais valorizados.
Abaixo, foto da família que nos hospedou dois anos seguidos em Jericoacoara, a primeira vez em 1987. Um ano depois, 1988, quando voltamos sem avisar, ao nos avistar, a filha mais velha:
- Mamãe, as meninas chegaram!
Ingressamos em uma grande área de terra batida onde uma cidade cenográfica reproduz o Nordeste de antanho. Casinhas de pau a pique sem forro e sem portas, camas tortas, prateleiras toscas, fotos antigas nas paredes, banheiro do lado de fora. Nada disso existe mais, dizem. Hoje todas as casas tem seu banheiro construído, toda pequena cidade tem um mercadinho com iogurte, leite em caixas etc. Melhor, com certeza. Mas que bom que conheci o Nordeste de antigamente. Este ainda vive dentro de mim nas melhores lembranças da juventude.
Na chegada a João Pessoa, em voo tardio – mais barato – ao pisar fora do avião reconheci o cheio das madrugadas em que acordávamos antes do sol nascer, e pegávamos carona até a rodoviária para embarcar em seis a oito horas de viagem até praias longínquas e inexploradas como a própria Jericoacoara. Não havia pousadas e nos hospedávamos nas casas das famílias, dormindo em redes na sala, comendo arroz, feijão, macarrão e peixe todo dia, e tendo que sair ao relento para ir ao banheiro, onde uma galinha encarapitada entre as taipas cacarejava assustada denunciando o nosso xixi noturno. O cocô era em um areal mais distante, onde cavávamos um buraco e depois enterrávamos nossos despojos. Pagávamos nossa estadia com escambo – talco, ou ‘pó branco’, era dos bens mais valorizados.
Abaixo, foto da família que nos hospedou dois anos seguidos em Jericoacoara, a primeira vez em 1987. Um ano depois, 1988, quando voltamos sem avisar, ao nos avistar, a filha mais velha:
- Mamãe, as meninas chegaram!
domingo, 26 de junho de 2016
Rock in Rio do forró
O Parque do Povo, em Campina Grande, deve ter área equivalente a umas três ou quatro vezes o Pavilhão de São Cristóvão. A entrada é franca, mas tem revista severa com detector de metais e olhar dentro das bolsas.
Entramos por corredores repletos de restaurantes e recantos cenográficos que remetem ao Nordeste de antigamente – que eu conheci. Lojas de roupas e suvenires, 'ilhas de forró' – palcos com bandas tocando e gente dançando. Mais adiante uma tenda gigantesca com teto coberto de bandeirolas coloridas e grandes gravuras dos santos: São Pedro, Santo Antonio e São João. Grupos de jovens vestidos com ricas roupagens, bordadas de pedrarias, se organizam para dançar diante de arquibancadas repletas de gente. É uma festa familiar, famílias inteiras com avós e crianças. A quadrilha que eu imaginava, anarriê, olha a cobra etc, cadê?
Seguimos em meio a quiosques vários, servindo todo tipo de comidas típicas ou não. Um dos quiosques tem música eletrônica e um barman de turbante, e os jovens se aglomeram em volta. Adiante adentramos uma mistura de Praça da Apoteose e quadra de escola de samba, área imensa cercada de camarotes. Todos os dias, durante o mês de julho, tem shows. Durante a semana acontecem mais cedo, na happy hour. Na programação, constam Wesley Safadão, Padre Fábio de Melo, outros nomes que nunca ouvi falar, mas que o povo ama e canta junto todas as letras.
À meia noite conseguem uma pulseirinha para o camarote vip e, de repente, estou junto do palco assistindo Luan Estilizado, seja lá o que isso queira dizer, que ganhou ou foi finalista do The Voice Brasil. O show é longuíssimo, a 'praça da apoteose' está lotada, os camarotes – inclusive aquele em que estou – também. Fumaça de gelo seco, explosões de fogos que me assustam e – fiquei pasma, pois, nunca tinha visto – drones que voam sobre a multidão e param em frente ao palco, filmando tudo.
Abaixo, foto tirada por mim no palco, junto de Luan Estilizado. Anarriê!
Entramos por corredores repletos de restaurantes e recantos cenográficos que remetem ao Nordeste de antigamente – que eu conheci. Lojas de roupas e suvenires, 'ilhas de forró' – palcos com bandas tocando e gente dançando. Mais adiante uma tenda gigantesca com teto coberto de bandeirolas coloridas e grandes gravuras dos santos: São Pedro, Santo Antonio e São João. Grupos de jovens vestidos com ricas roupagens, bordadas de pedrarias, se organizam para dançar diante de arquibancadas repletas de gente. É uma festa familiar, famílias inteiras com avós e crianças. A quadrilha que eu imaginava, anarriê, olha a cobra etc, cadê?
Seguimos em meio a quiosques vários, servindo todo tipo de comidas típicas ou não. Um dos quiosques tem música eletrônica e um barman de turbante, e os jovens se aglomeram em volta. Adiante adentramos uma mistura de Praça da Apoteose e quadra de escola de samba, área imensa cercada de camarotes. Todos os dias, durante o mês de julho, tem shows. Durante a semana acontecem mais cedo, na happy hour. Na programação, constam Wesley Safadão, Padre Fábio de Melo, outros nomes que nunca ouvi falar, mas que o povo ama e canta junto todas as letras.
À meia noite conseguem uma pulseirinha para o camarote vip e, de repente, estou junto do palco assistindo Luan Estilizado, seja lá o que isso queira dizer, que ganhou ou foi finalista do The Voice Brasil. O show é longuíssimo, a 'praça da apoteose' está lotada, os camarotes – inclusive aquele em que estou – também. Fumaça de gelo seco, explosões de fogos que me assustam e – fiquei pasma, pois, nunca tinha visto – drones que voam sobre a multidão e param em frente ao palco, filmando tudo.
Abaixo, foto tirada por mim no palco, junto de Luan Estilizado. Anarriê!
terça-feira, 21 de junho de 2016
Paraíba 30 anos depois
Fui à Paraíba no final da década de 80, ainda na faculdade. Eu era muito jovem e pensava que o Brasil era todo igual ao Rio de Janeiro. Fiquei chocada, achando tudo muito ‘atrasado’. Em plena capital, João Pessoa – a pessoa que me hospedou morava em uma rua paralela à orla, pertinho do hotel Tambaú –, o leite era vendido em latões no lombo de burricos. Uma ida à padaria e não havia nada além de grandes broas de milho. Nada de doces ou pães confeitados como eu estava acostumada.
Regressei em junho de 2016, animada com a possibilidade de um São João típico – barraquinhas, chão de terra batida, quadrilha – e me deparo com uma espécie de rock in rio do forró. Tudo mudou na Paraíba - para melhor. Dizem que foi o governo do PT. Dizem que fez muito bem ao Nordeste, mas que se esqueceram de dar instrumentos ao povo para trabalhar, produzir, e assim aproveitar o impulso que foi dado para incrementar a riqueza e a prosperidade. Ficaram viciados no Bolsa Família, que nesta região do país, tem valor mais alto que nas demais.
Outra questão é que as cidades cresceram, se desenvolveram, mas tampouco houve uma atenção para a gestão das águas, que devido ao clima semi árido do Nordeste, sempre foram escassas. A situação é periclitante em algumas cidades, onde se diz que a água simplesmente acabou.
- Agora estão esperando as chuvas, e se não vierem, não sabemos como vai ser. Deus há de ajudar - foi o que ouvi.
Em Campina Grande, cidade igual ou maior que João Pessoa, o açude está perto de se esgotar. Fui preparar um chá na casa onde fiquei hospedada e a anfitriã:
- Faça com água do filtro.
- No Rio, uso água da bica.
- Mas aqui não. Nosso açude está com muito pouca água e a que resta está poluída.
Explicou que usam a primeira água da lavadora para lavar chão, banheiros, etc. A segunda água é usada para regar plantas.
- Nossa última chance – e ela frisa a palavra ‘última’ – é a transposição do Rio São Francisco. Está prometido para esse ano, segundo semestre de 2016.
Me assusto e me admiro, pois, ao contrário da Bahia, onde quase toda casa em área rural tem uma cisterna para captação de água da chuva, na Paraíba não há. Anda chovendo em João Pessoa e Campina, mas não há cisternas.
Abaixo, eu e minha anfitriã, a escritora paraibana Marília Arnaud - autora do magnífico romance "Suíte de silêncios" (Rocco) e da apresentação do livro "A Pausa do Tempo", com os melhores textos do blog.
Regressei em junho de 2016, animada com a possibilidade de um São João típico – barraquinhas, chão de terra batida, quadrilha – e me deparo com uma espécie de rock in rio do forró. Tudo mudou na Paraíba - para melhor. Dizem que foi o governo do PT. Dizem que fez muito bem ao Nordeste, mas que se esqueceram de dar instrumentos ao povo para trabalhar, produzir, e assim aproveitar o impulso que foi dado para incrementar a riqueza e a prosperidade. Ficaram viciados no Bolsa Família, que nesta região do país, tem valor mais alto que nas demais.
Outra questão é que as cidades cresceram, se desenvolveram, mas tampouco houve uma atenção para a gestão das águas, que devido ao clima semi árido do Nordeste, sempre foram escassas. A situação é periclitante em algumas cidades, onde se diz que a água simplesmente acabou.
- Agora estão esperando as chuvas, e se não vierem, não sabemos como vai ser. Deus há de ajudar - foi o que ouvi.
Em Campina Grande, cidade igual ou maior que João Pessoa, o açude está perto de se esgotar. Fui preparar um chá na casa onde fiquei hospedada e a anfitriã:
- Faça com água do filtro.
- No Rio, uso água da bica.
- Mas aqui não. Nosso açude está com muito pouca água e a que resta está poluída.
Explicou que usam a primeira água da lavadora para lavar chão, banheiros, etc. A segunda água é usada para regar plantas.
- Nossa última chance – e ela frisa a palavra ‘última’ – é a transposição do Rio São Francisco. Está prometido para esse ano, segundo semestre de 2016.
Me assusto e me admiro, pois, ao contrário da Bahia, onde quase toda casa em área rural tem uma cisterna para captação de água da chuva, na Paraíba não há. Anda chovendo em João Pessoa e Campina, mas não há cisternas.
Abaixo, eu e minha anfitriã, a escritora paraibana Marília Arnaud - autora do magnífico romance "Suíte de silêncios" (Rocco) e da apresentação do livro "A Pausa do Tempo", com os melhores textos do blog.
domingo, 3 de abril de 2016
As frases soltas
Faz algum tempo, elas apareceram nos muros do Rio de Janeiro, soltas, descontextualizadas, mas dizem muito e fazem refletir. Algumas são acompanhadas de imagens, mas a maioria não. A palavra basta.
Deixa ela em paz vem acompanhada da imagem de uma vagina aberta como se fosse uma flor. Está colorida, cheia de pequenas folhas e flores, toda enfeitada. Deixem-na em paz para que seja livre e feliz sem culpa, sem assédios de qualquer natureza. Porém, como o ódio e a ignorância ainda correm soltos por aí, tenho visto esse cartaz rasgado, rabiscado, pichado. Ainda há um longo caminho a percorrer para as mulheres.
Não fui eu aparece só – e basta. As imagens, nós vemos todos os dias nos jornais, nas revistas, na TV. Políticos de qualquer partido roubam, corrompem, se digladiam pelo poder e a justificativa é sempre não fui eu. É a fala da criança quando a mãe a surpreende fazendo algo errado. O vaso quebrou, você não deveria ter mexido e agora os cacos jazem no chão. A criança diz, como se a fala pudesse ocultar o resultado de sua transgressão: Não fui eu.
Quando nosso país irá crescer e amadurecer? Para que isso aconteça é necessário aprender com os erros. Tenho esperança de que esse aprendizado já esteja em curso. Será?
Outra frase apareceu esses dias: Eu dei pra ele. Mais uma vez as mulheres se pronunciam, ousam. É meu, eu dou para quem quiser, com gosto e propriedade. Dei pra ele e pronto.
As frases nos muros não estão soltas. Para bom entendedor, uma simples frase basta.
Faz algum tempo, elas apareceram nos muros do Rio de Janeiro, soltas, descontextualizadas, mas dizem muito e fazem refletir. Algumas são acompanhadas de imagens, mas a maioria não. A palavra basta.
Deixa ela em paz vem acompanhada da imagem de uma vagina aberta como se fosse uma flor. Está colorida, cheia de pequenas folhas e flores, toda enfeitada. Deixem-na em paz para que seja livre e feliz sem culpa, sem assédios de qualquer natureza. Porém, como o ódio e a ignorância ainda correm soltos por aí, tenho visto esse cartaz rasgado, rabiscado, pichado. Ainda há um longo caminho a percorrer para as mulheres.
Não fui eu aparece só – e basta. As imagens, nós vemos todos os dias nos jornais, nas revistas, na TV. Políticos de qualquer partido roubam, corrompem, se digladiam pelo poder e a justificativa é sempre não fui eu. É a fala da criança quando a mãe a surpreende fazendo algo errado. O vaso quebrou, você não deveria ter mexido e agora os cacos jazem no chão. A criança diz, como se a fala pudesse ocultar o resultado de sua transgressão: Não fui eu.
Quando nosso país irá crescer e amadurecer? Para que isso aconteça é necessário aprender com os erros. Tenho esperança de que esse aprendizado já esteja em curso. Será?
Outra frase apareceu esses dias: Eu dei pra ele. Mais uma vez as mulheres se pronunciam, ousam. É meu, eu dou para quem quiser, com gosto e propriedade. Dei pra ele e pronto.
As frases nos muros não estão soltas. Para bom entendedor, uma simples frase basta.
quinta-feira, 21 de janeiro de 2016
Que a Força esteja com você
Eu tinha 11 anos quando Guerra nas Estrelas estreou nos cinemas. Demorei um pouco a assistir e lembro dos amigos comentando: “O final do filme é chocante!” (gíria da época). Era mesmo. Tanto que assisti uma, duas, três... Mais de dez vezes. Meu quarto tinha um poster lindo e diferente que meu pai trouxe da França: Que la force soit avec toi – La Guerre des L´Etoiles. E o desenho de Luke Skywalker empunhando o sabre de luz com Leia a seus pés.
Meu material de escola era um fichário todo enfeitado com recortes de Guerra nas Estrelas, principalmente do Mark Hammill, o loirinho por quem me apaixonei, e que sofreu um acidente de carro – mega azar – entre o primeiro e o segundo filme da série, o que comprometeu sua carreira.
Mark Hammill até que não está mal em sua breve participação no novo filme Star Wars – The Force Awakens, apesar de não dar uma palavra. Harrison Ford, sem brincadeira, me lembrou Roberto Carlos. Adoro e respeito os dois artistas, mas que estão parecidos, estão. A mocinha e seu galã afro-descendente dão conta do recado, mas fico raiva porque uma atriz branca nunca beija um ator negro em filme americano. Já aconteceu antes em O dossiê Pelicano, com Julia Roberts e Denzel Washington. Rola o maior clima entre os dois – assim como entre Rey e Finn –, mas nada de beijoca no final. O racismo arraigado não deixa!
Quem rouba a cena, para não dizer o filme inteiro, são o vilão Kylo Ren – interpretação impressionante do feioso-charmosão Adam Driver – e Chewbacca com seus grunhidos adoráveis. Aliás, na minha opinião, só no trecho final é que o filme realmente decola, com o embate entre Han Solo e o filho e a escalada da mocinha naquele cenário estonteante em busca do mito vivo, Luke Skywalker. Procurei no Google e vi que se trata de uma ilha na costa da Irlanda onde houve, entre os séculos VI e XIII, um monastério católico. Verdadeiro Macchu Picchu à beira-mar.
No mais, Star Wars – The Force Awakens é uma forma eficiente – mas não original – de apresentar a saga às novas gerações. O roteiro é pífio, as batalhas das naves são rápidas demais, a gente perde os detalhes, certos personagens remetem escaradamente ao Senhor dos Anéis. Contudo, dá pra divertir.
Meu material de escola era um fichário todo enfeitado com recortes de Guerra nas Estrelas, principalmente do Mark Hammill, o loirinho por quem me apaixonei, e que sofreu um acidente de carro – mega azar – entre o primeiro e o segundo filme da série, o que comprometeu sua carreira.
Mark Hammill até que não está mal em sua breve participação no novo filme Star Wars – The Force Awakens, apesar de não dar uma palavra. Harrison Ford, sem brincadeira, me lembrou Roberto Carlos. Adoro e respeito os dois artistas, mas que estão parecidos, estão. A mocinha e seu galã afro-descendente dão conta do recado, mas fico raiva porque uma atriz branca nunca beija um ator negro em filme americano. Já aconteceu antes em O dossiê Pelicano, com Julia Roberts e Denzel Washington. Rola o maior clima entre os dois – assim como entre Rey e Finn –, mas nada de beijoca no final. O racismo arraigado não deixa!
Quem rouba a cena, para não dizer o filme inteiro, são o vilão Kylo Ren – interpretação impressionante do feioso-charmosão Adam Driver – e Chewbacca com seus grunhidos adoráveis. Aliás, na minha opinião, só no trecho final é que o filme realmente decola, com o embate entre Han Solo e o filho e a escalada da mocinha naquele cenário estonteante em busca do mito vivo, Luke Skywalker. Procurei no Google e vi que se trata de uma ilha na costa da Irlanda onde houve, entre os séculos VI e XIII, um monastério católico. Verdadeiro Macchu Picchu à beira-mar.
No mais, Star Wars – The Force Awakens é uma forma eficiente – mas não original – de apresentar a saga às novas gerações. O roteiro é pífio, as batalhas das naves são rápidas demais, a gente perde os detalhes, certos personagens remetem escaradamente ao Senhor dos Anéis. Contudo, dá pra divertir.
quarta-feira, 9 de dezembro de 2015
A dobra da coberta
O mundo está passando por um momento difícil – e esse momento se alonga. Clima caótico, deslocamentos em massa, terrorismo, guerras. O Brasil também. Dengue, microcefalia, crimes ambientais, Des-Governo. Empresas fechando, demissões em massa. Um fim de ano esquisito, todo mundo ressabiado, para não dizer com medo.
Recebi aqui em casa minha amiga Célia, que é vice reitora da Universidade Federal de Ouro Preto e vive em Mariana/MG, perto de onde o mar de lama da Vale/Samarco arrasou um distrito inteiro. Por uma graça do destino, a casa onde mora com sua família não estava na rota da destruição. Mas no dia seguinte à tragédia, ela foi até o ginásio Arena Mariana para ver o que se passava. Eis o relato:
“Em 24 horas, o ginásio foi todo equipado para receber as pessoas; o povo trabalhando para ajudar os outros. Uma parte das arquibancadas era uma montanha de fraldas descartáveis. Outra parte era leite em pó, pão e biscoitos. Tivemos que mandar parar de trazer coisas para não tirar a iniciativa dos responsáveis”, contou a Célia. “Mas o que mais me impressionou foi o chão coalhado de colchonetes com travesseiro, manta e o lençol dobrado sobre a manta. O lençol dobrado, um por um!”
Os dias passaram e o que a Célia contou ficou reverberando dentro de mim. Me imaginei como uma das pessoas que haviam acabado de perder a casa, perder tudo, e apesar disso tinha uma cama limpa e arrumada – por alguém que não conhecia – para passar a primeira noite fatídica, poder me deitar, dormir, chorar.
Apesar das notícias ruins nos jornais, a humanidade vem aprendendo alguma coisa. Na base da porrada, mas estamos aprendendo.
Recebi aqui em casa minha amiga Célia, que é vice reitora da Universidade Federal de Ouro Preto e vive em Mariana/MG, perto de onde o mar de lama da Vale/Samarco arrasou um distrito inteiro. Por uma graça do destino, a casa onde mora com sua família não estava na rota da destruição. Mas no dia seguinte à tragédia, ela foi até o ginásio Arena Mariana para ver o que se passava. Eis o relato:
“Em 24 horas, o ginásio foi todo equipado para receber as pessoas; o povo trabalhando para ajudar os outros. Uma parte das arquibancadas era uma montanha de fraldas descartáveis. Outra parte era leite em pó, pão e biscoitos. Tivemos que mandar parar de trazer coisas para não tirar a iniciativa dos responsáveis”, contou a Célia. “Mas o que mais me impressionou foi o chão coalhado de colchonetes com travesseiro, manta e o lençol dobrado sobre a manta. O lençol dobrado, um por um!”
Os dias passaram e o que a Célia contou ficou reverberando dentro de mim. Me imaginei como uma das pessoas que haviam acabado de perder a casa, perder tudo, e apesar disso tinha uma cama limpa e arrumada – por alguém que não conhecia – para passar a primeira noite fatídica, poder me deitar, dormir, chorar.
Apesar das notícias ruins nos jornais, a humanidade vem aprendendo alguma coisa. Na base da porrada, mas estamos aprendendo.
sábado, 14 de novembro de 2015
Fascista no amor
Diz Marcia Tiburi em seu excelente e oportuno livro Como conversar com um fascista (Ed. Record), que nos dá informação e argumentos para nos defendermos do ódio, da burrice e da pobreza intelectual e de espírito que rondam por aí:
“O que chamo de fascista é um tipo (...) bastante comum. (...) O empobrecimento do qual ele é portador se deu pela perda da dimensão do diálogo. O diálogo se torna impossível quando se perde a dimensão do outro. O fascista não consegue se relacionar com outras dimensões que ultrapassem as verdades absolutas nas quais ele firmou seu modo de ser.”
A livro se refere principalmente à esfera da política, mas não pude deixar de pensar no quanto somos fascistas em outras áreas da vida, especialmente... no amor.
As relações afetivas estão se tornando cada vez mais difíceis de se manter, cada vez mais voláteis. Desconfio que amar de verdade saiu de moda, ninguém mais se importa com isso, desde que se possa ‘ficar’ indefinidamente e assim ir preenchendo com vários personagens um lugar que nossos pais e avós preencheram com seus cônjugues.
Amar está fora de moda porque exige o esforço do diálogo – e aí entra a reflexão de Marcia Tiburi sobre o fascismo. Quando o relacionamento fica difícil, quando algo desagrada uma das partes, basta terminar e trocar. Para isso servem aplicativos como o Tinder e o Happen – cardápios de pessoas.
O diálogo entre o casal, seja ele homo ou hetero, requer paciência, persistência, enxergar e aceitar no outro aquilo que difere de nós. E nem sempre se chega logo a uma conclusão, podem ser necessárias várias rodadas de diálogos, leva tempo!
Assim é a democracia: lenta, mas uma construção verdadeira e legítima, através da qual se chega a um lugar diferente e melhor, onde todos os lados são levados em consideração, e onde se pressupõe que, após deixar nossas ‘verdades’ de lado, se conquista um consenso comum.
O livro da Marcia Tiburi serviu como um alerta para ter cuidado com a fascista que existe em mim, a Valéria impaciente, inflexível e que deseja sempre ‘ter razão’. Como diz Ferreira Gullar: “Não quero ter razão. Quero ser feliz”.
“O que chamo de fascista é um tipo (...) bastante comum. (...) O empobrecimento do qual ele é portador se deu pela perda da dimensão do diálogo. O diálogo se torna impossível quando se perde a dimensão do outro. O fascista não consegue se relacionar com outras dimensões que ultrapassem as verdades absolutas nas quais ele firmou seu modo de ser.”
A livro se refere principalmente à esfera da política, mas não pude deixar de pensar no quanto somos fascistas em outras áreas da vida, especialmente... no amor.
As relações afetivas estão se tornando cada vez mais difíceis de se manter, cada vez mais voláteis. Desconfio que amar de verdade saiu de moda, ninguém mais se importa com isso, desde que se possa ‘ficar’ indefinidamente e assim ir preenchendo com vários personagens um lugar que nossos pais e avós preencheram com seus cônjugues.
Amar está fora de moda porque exige o esforço do diálogo – e aí entra a reflexão de Marcia Tiburi sobre o fascismo. Quando o relacionamento fica difícil, quando algo desagrada uma das partes, basta terminar e trocar. Para isso servem aplicativos como o Tinder e o Happen – cardápios de pessoas.
O diálogo entre o casal, seja ele homo ou hetero, requer paciência, persistência, enxergar e aceitar no outro aquilo que difere de nós. E nem sempre se chega logo a uma conclusão, podem ser necessárias várias rodadas de diálogos, leva tempo!
Assim é a democracia: lenta, mas uma construção verdadeira e legítima, através da qual se chega a um lugar diferente e melhor, onde todos os lados são levados em consideração, e onde se pressupõe que, após deixar nossas ‘verdades’ de lado, se conquista um consenso comum.
O livro da Marcia Tiburi serviu como um alerta para ter cuidado com a fascista que existe em mim, a Valéria impaciente, inflexível e que deseja sempre ‘ter razão’. Como diz Ferreira Gullar: “Não quero ter razão. Quero ser feliz”.
terça-feira, 2 de junho de 2015
A felicidade
Ela chega de repente e nos pega de surpresa. O tempo pára. O mundo perfeito, completo. Nada falta. Tudo bem que é passageiro. Então, temos que ficar quietinhos e aproveitar. Estar. Conforto. Logo hoje que o dia foi tão tumultuado. Um prêmio. Uma dádiva. Uma mágica.
Respiro e trato de sentir: isso é a felicidade. Um pássaro raro, pousado em um galho bem na minha frente. Cantando, limpando as penas, exercitando as asas. Para, logo voar novamente. Passou... A vida continua. Já não é completa. Algo falta. Algo incomoda. Há sempre mais o que fazer. Mas valeu. O sentimento está ali, ao alcance. Uma joia na memória.
Daqui a pouco, vai me surpreender novamente. Agora já sei como é.
Respiro e trato de sentir: isso é a felicidade. Um pássaro raro, pousado em um galho bem na minha frente. Cantando, limpando as penas, exercitando as asas. Para, logo voar novamente. Passou... A vida continua. Já não é completa. Algo falta. Algo incomoda. Há sempre mais o que fazer. Mas valeu. O sentimento está ali, ao alcance. Uma joia na memória.
Daqui a pouco, vai me surpreender novamente. Agora já sei como é.
domingo, 24 de maio de 2015
Vovó Sônia
Fiz as contas: na hora em que a vovô Sônia morreu no Brasil nós estávamos no restaurante chinês em Monterrey, Califórnia, às gargalhadas porque a garçonete não falava uma palavra de inglês nem de espanhol, e não conseguíamos chegar a conclusão alguma a respeito do que iríamos comer.
Na manhã seguinte, quando acordamos, veio a notícia. Havia passado por duas cirurgias muito delicadas nos últimos dias e estava sedada, dormindo. Mas naquela noite, ela partiu.
Vovó Sônia esperou a gente viajar para morrer. Sempre teve saúde frágil, estávamos acostumados aos sustos, ao vê-la se internar por uns dias, mas sempre saía e voltava à vida normal: Hortifruti às quintas feiras, quando ia dirigindo seu carro, freando e buzinando alto por qualquer motivo; hidroginástica três vezes por semana, com seu traje de surfista; cinema à tarde com o vovô Bóris.
Saímos para viajar e a deixamos viva. Foi cremada um dia antes do nosso retorno. Entre esses dois extremos, passaram-se 15 dias.
Alegria e tristeza misturaram-se naquela linda manhã em que seguimos viagem a partir de Monterrey pela Highway One. No dia anterior, conseguimos um mapa que indicava as belezas do caminho. Por iniciativa própria, sem que ninguém indicasse, decidimos parar em um parque estadual à beira mar chamado Point Lobos, considerado um refúgio de leões marinhos. Chegamos lá antes das oito, quando o sol ainda começava a esquentar. Caminhamos em silêncio pelas trilhas em meio a campos de margaridas, penetramos num bosque de ciprestes retorcidos, esparramados sob ação do vento. O mar era azul turquesa, azul esmeralda, e lá embaixo víamos os leões marinhos com as cabecinhas para fora d´água, olhando-nos de longe, quietinhos à luz da manhã. Nesse lindo lugar, cada um de nós, a sua maneira, se despediu da vovó, dos almoços que preparava com tanto prazer, dos guefilte fish e kneidales em Hosh Hashaná e Pessach.
Faz muita falta a vovó. O fato de não a termos visto doente, hospitalizada, morta, confere uma sensação de irrealidade ao fato. Melhor assim, talvez.
Abaixo, eu e a Sônia no lançamento da Pausa do Tempo em setembro de 2013.
Na manhã seguinte, quando acordamos, veio a notícia. Havia passado por duas cirurgias muito delicadas nos últimos dias e estava sedada, dormindo. Mas naquela noite, ela partiu.
Vovó Sônia esperou a gente viajar para morrer. Sempre teve saúde frágil, estávamos acostumados aos sustos, ao vê-la se internar por uns dias, mas sempre saía e voltava à vida normal: Hortifruti às quintas feiras, quando ia dirigindo seu carro, freando e buzinando alto por qualquer motivo; hidroginástica três vezes por semana, com seu traje de surfista; cinema à tarde com o vovô Bóris.
Saímos para viajar e a deixamos viva. Foi cremada um dia antes do nosso retorno. Entre esses dois extremos, passaram-se 15 dias.
Alegria e tristeza misturaram-se naquela linda manhã em que seguimos viagem a partir de Monterrey pela Highway One. No dia anterior, conseguimos um mapa que indicava as belezas do caminho. Por iniciativa própria, sem que ninguém indicasse, decidimos parar em um parque estadual à beira mar chamado Point Lobos, considerado um refúgio de leões marinhos. Chegamos lá antes das oito, quando o sol ainda começava a esquentar. Caminhamos em silêncio pelas trilhas em meio a campos de margaridas, penetramos num bosque de ciprestes retorcidos, esparramados sob ação do vento. O mar era azul turquesa, azul esmeralda, e lá embaixo víamos os leões marinhos com as cabecinhas para fora d´água, olhando-nos de longe, quietinhos à luz da manhã. Nesse lindo lugar, cada um de nós, a sua maneira, se despediu da vovó, dos almoços que preparava com tanto prazer, dos guefilte fish e kneidales em Hosh Hashaná e Pessach.
Faz muita falta a vovó. O fato de não a termos visto doente, hospitalizada, morta, confere uma sensação de irrealidade ao fato. Melhor assim, talvez.
Abaixo, eu e a Sônia no lançamento da Pausa do Tempo em setembro de 2013.
domingo, 10 de maio de 2015
O anjo
A médica pediu uma tomografia do abdômen e tórax. Raio X completo para enxergar tudo por dentro. Cinco anos sem um check up completo e um histórico familiar, por parte de pai, repleto de mortes por câncer. Meu próprio pai partiu dessa maneira, um jeito bem sofrido de morrer e de assistir alguém morrer. Lembro da minha tia, irmã dele, que morreu de velha (!), dizendo com sotaque gaúcho:
- Te cuida, minha filha, te cuida!...
Lá fui eu fazer o exame. Injetam um líquido branco através de tubos nas veias. A gente se deita espichada, lembrei da minha gata, quando foi castrada. Olhei através da janelinha da clínica e a vi deitada igual a mim, as patinhas amarradas enquanto lhe sacavam o útero e ovários. Lembrei do meu pai e da minha avó, lá no céu, e senti muito medo.
Lá vem o resultado. Um dia antes de ir buscar, compartilhei meus pesares com minha amiga Adriana (a mesma do post A alma penada), que rebateu:
- Tá maluca? O anjo não ia deixar...
- Que anjo?
- O nosso anjo, ora. Ele sabe tudo que se passa com a gente. Não ia deixar nada de mal acontecer, você vai ver.
Não tive coragem de abrir o envelope branco, enorme. Deixei direto na portaria da médica. E tome esperar. Quando não aguentava mais, mandei torpedo: ‘Deixei o resultado da tomografia na sua portaria, você viu?’ Quase dez da noite chega a resposta: ‘Amanhã converso com você’.
Um baque. Uma noite em apavorado torpor. ‘Ela encontrou algo. Por que não? É a coisa mais comum do mundo essa doença. Muitos amigos tem ou tiveram. A maioria está viva. Por que não comigo?’ Torvelinho de pensamentos, suores, estômago contraído. Manhã seguinte, ressacada de sono, corri atrás da médica. Finalmente conseguimos falar. Não respondeu antes porque não tivera tempo de ‘analisar’ os resultados.
Descobri que, da mesma forma que a vida marca por fora, marca dentro também. Riscos, rugas, sinais. Esse exame é f... mostra tudo! Meu corpo já não é o de um bebê. Mas, dentre tudo que se viu, nada grave. Nada estranho. Nada com o que se preocupar de verdade.
Ufa!... O anjo... Obrigada, obrigada, obrigada.
- Te cuida, minha filha, te cuida!...
Lá fui eu fazer o exame. Injetam um líquido branco através de tubos nas veias. A gente se deita espichada, lembrei da minha gata, quando foi castrada. Olhei através da janelinha da clínica e a vi deitada igual a mim, as patinhas amarradas enquanto lhe sacavam o útero e ovários. Lembrei do meu pai e da minha avó, lá no céu, e senti muito medo.
Lá vem o resultado. Um dia antes de ir buscar, compartilhei meus pesares com minha amiga Adriana (a mesma do post A alma penada), que rebateu:
- Tá maluca? O anjo não ia deixar...
- Que anjo?
- O nosso anjo, ora. Ele sabe tudo que se passa com a gente. Não ia deixar nada de mal acontecer, você vai ver.
Não tive coragem de abrir o envelope branco, enorme. Deixei direto na portaria da médica. E tome esperar. Quando não aguentava mais, mandei torpedo: ‘Deixei o resultado da tomografia na sua portaria, você viu?’ Quase dez da noite chega a resposta: ‘Amanhã converso com você’.
Um baque. Uma noite em apavorado torpor. ‘Ela encontrou algo. Por que não? É a coisa mais comum do mundo essa doença. Muitos amigos tem ou tiveram. A maioria está viva. Por que não comigo?’ Torvelinho de pensamentos, suores, estômago contraído. Manhã seguinte, ressacada de sono, corri atrás da médica. Finalmente conseguimos falar. Não respondeu antes porque não tivera tempo de ‘analisar’ os resultados.
Descobri que, da mesma forma que a vida marca por fora, marca dentro também. Riscos, rugas, sinais. Esse exame é f... mostra tudo! Meu corpo já não é o de um bebê. Mas, dentre tudo que se viu, nada grave. Nada estranho. Nada com o que se preocupar de verdade.
Ufa!... O anjo... Obrigada, obrigada, obrigada.
sábado, 27 de dezembro de 2014
Relembrar os dias
Dizer que o tempo está passando rápido, que tudo está ‘tão corrido’, já virou chavão. Mas quem parou para pensar nas consequências da correria? A principal delas é que todos estão sofrendo de amnésia. Ninguém se lembra de nada: qual história ouviu aonde, qual caso contou a quem, se já contou ou não. Nossa memória está toda picotada, feito um quebra cabeça antes de montar.
Assustei-me outro dia ao me dar conta de que não me lembrava do que havia feito na segunda-feira. Era sexta. Tentei, tentei e nada.
Resolvi, então, relembrar o que havia feito naquele mesmo dia. Desde a hora em que abri os olhos na cama, os mínimos detalhes: tocar com os pés o chão, a primeira imagem do rosto no espelho banheiro, o pão tostado no café da manhã. Senti um prazer enorme ao recuperar o meu dia e ainda deu um soninho...
Há uns três meses, faço isso toda noite: relembrar com detalhes o que fiz ao longo do dia. Agradeço os momentos bons, reflito sobre os difíceis. Principalmente, sinto-me dona da minha vida. A correria do mundo pode continuar, eu fico. Relembrar os dias reforça o Presente.
Desejo que, em 2015, possamos reforçar nossa Presença. Só assim se vive verdadeiramente.
Assustei-me outro dia ao me dar conta de que não me lembrava do que havia feito na segunda-feira. Era sexta. Tentei, tentei e nada.
Resolvi, então, relembrar o que havia feito naquele mesmo dia. Desde a hora em que abri os olhos na cama, os mínimos detalhes: tocar com os pés o chão, a primeira imagem do rosto no espelho banheiro, o pão tostado no café da manhã. Senti um prazer enorme ao recuperar o meu dia e ainda deu um soninho...
Há uns três meses, faço isso toda noite: relembrar com detalhes o que fiz ao longo do dia. Agradeço os momentos bons, reflito sobre os difíceis. Principalmente, sinto-me dona da minha vida. A correria do mundo pode continuar, eu fico. Relembrar os dias reforça o Presente.
Desejo que, em 2015, possamos reforçar nossa Presença. Só assim se vive verdadeiramente.
domingo, 14 de dezembro de 2014
A alma penada
Minha amiga Adriana, que vive na Espanha, veio ao Rio de Janeiro visitar a família e tirou uma história do fundo do baú, que eu não conhecia: da alma penada.
No final da década de 80, morávamos na região que hoje se chama Baixo Lagoa. Os edifícios de frente para a Lagoa Rodrigo de Freitas, a maioria tem duas entradas: uma pela Rua Alexandre Ferreira e outra pela Borges de Medeiros. Adriana morava em um desses prédios e o porteiro se chamava seu Januário, o Seu Janu.
Certo dia, voltando de uma caminhada, minha amiga resolveu entrar pela portaria da Lagoa, que era menos usada e por isso vivia fechada. Tocou o interfone e esperou o Seu Janu. Lá vem ele, mas pára, estático, e fica olhando para ela.
Toc, toc, toc (no vidro).
- Seu Janu! Abre a porta!
Seu Janu feito estátua.
Nessa hora, Adriana olha para o lado e vê: a alma penada.
- Mas como assim uma alma penada? Como ela era? – pergunto.
- Não dá para explicar...
- Mas como você sabia que era uma alma penada?
- ... A gente simplesmente sabe.
Toc, toc, toc, toc, toc! Adriana esmurra o vidro da portaria fazendo-o balançar. Grita:
- Seu Janu, abre essa porta!
Olha para o lado novamente e ... pluft! Sumiu.
Seu Januário sai do transe e destranca a fechadura. Nenhum dos dois fala nada, Adriana toma a direção da escada e sobe esbaforida.
Até hoje, quando vem ao Rio, dá de cara com Seu Januário, que ainda trabalha no bairro. Outro dia, ele parou para falar com ela.
- Adriana, que bom te ver, há quanto tempo!
Conversa vai, conversa vem, minha amiga não perde a oportunidade:
- E aquele dia em que o senhor me deixou presa na rua junto com a alma penada?
Seu Janu finge que não entende, se despedem, cada um segue seu caminho.
No final da década de 80, morávamos na região que hoje se chama Baixo Lagoa. Os edifícios de frente para a Lagoa Rodrigo de Freitas, a maioria tem duas entradas: uma pela Rua Alexandre Ferreira e outra pela Borges de Medeiros. Adriana morava em um desses prédios e o porteiro se chamava seu Januário, o Seu Janu.
Certo dia, voltando de uma caminhada, minha amiga resolveu entrar pela portaria da Lagoa, que era menos usada e por isso vivia fechada. Tocou o interfone e esperou o Seu Janu. Lá vem ele, mas pára, estático, e fica olhando para ela.
Toc, toc, toc (no vidro).
- Seu Janu! Abre a porta!
Seu Janu feito estátua.
Nessa hora, Adriana olha para o lado e vê: a alma penada.
- Mas como assim uma alma penada? Como ela era? – pergunto.
- Não dá para explicar...
- Mas como você sabia que era uma alma penada?
- ... A gente simplesmente sabe.
Toc, toc, toc, toc, toc! Adriana esmurra o vidro da portaria fazendo-o balançar. Grita:
- Seu Janu, abre essa porta!
Olha para o lado novamente e ... pluft! Sumiu.
Seu Januário sai do transe e destranca a fechadura. Nenhum dos dois fala nada, Adriana toma a direção da escada e sobe esbaforida.
Até hoje, quando vem ao Rio, dá de cara com Seu Januário, que ainda trabalha no bairro. Outro dia, ele parou para falar com ela.
- Adriana, que bom te ver, há quanto tempo!
Conversa vai, conversa vem, minha amiga não perde a oportunidade:
- E aquele dia em que o senhor me deixou presa na rua junto com a alma penada?
Seu Janu finge que não entende, se despedem, cada um segue seu caminho.
segunda-feira, 1 de dezembro de 2014
30 anos esta noite
Mas era ontem!... Acordar antes das seis, engolir o café, pegar o ônibus até o Leblon, saltar em frente à igreja, passar pelo porteiro baixinho com cara de padre, encarar horas e horas de matéria massacrante. Uma, duas semanas de aula em março e as provas começavam, e iam até junho sem parar. Insano.
Meu pai, zeloso com a filha única, deve ter se informado com os amigos e veio com a ordem:
- Vai estudar no Santo Agostinho.
- Quero o Princesa Isabel.
- Santo Agostinho!
No segundo ano ele morreu e me abandonou com a decisão. Eu podia ter mudado de escola, mas já havia feito laços de amizade e resolvi permanecer. Nesse mesmo ano fatídico, fiquei em recuperação pela primeira vez na vida, matemática, e passei janeiro inteiro frequentando aulas as segundas e quartas, para fazer uma prova no final do mês em que tenho certeza que não tirei a nota exigida. Mas me passaram de ano, e isso eu agradeço.
Veio o terceiro ano e as já sofridas aulas aos sábados se transformaram em provas aos sábados. Enquanto os amigos saíam à noite nas sextas, eu tinha que dormir às dez para levantar cedo e encarar avaliações de física, química, biologia... Queria morrer.
O Santo Agostinho coincidiu com um dos períodos mais duros da minha vida. A morte do pai, a doença da mãe, muita solidão. Talvez por isso não guarde lembranças claras e nenhuma foto. As colegas que organizaram a festa dos 30 pediram fotos, registros, o álbum de formatura. Não tenho nada. Não guardei nada. Nem saudade.
Mais tarde, quando um grupo de ex-colegas começou a me chamar para tomar chope, no início, não me sentia confortável. Com o tempo, passei a amar e a valorizar aquele grupo de pessoas bem parecidas comigo, bem formadas, que levam a vida com extrema seriedade e responsabilidade, segurando as barras sem fazer drama. Dizem que a escola não forma, quem molda o caráter é a família. Mas essa forma de encarar a vida é, sim, herança do Santo Agostinho.
Quando já era jornalista, fui entrevistar o antropólogo Everardo Rocha, que escolhi para meu orientador na monografia ao final do curso na faculdade. Contou que seus filhos estudavam no Santo Agostinho.
- Ai que horror, que colégio horrível, eu nunca colocaria meus filhos lá (de fato, não o fiz). Por que fez isso com os pobrezinhos?
- Porque queria formar seres humanos como você.
Assim aprendi também a sentir orgulho de responder à pergunta ‘onde você estudou?’:
- No Santo Agostinho.
Três anos de chumbo, muita pressão e pouco prazer. Três anos de tristeza e sofrimento na esfera pessoal. Mas três anos vezes dez são capazes de transmutar muita coisa. Na peneira do tempo ficaram a Amizade, a Alegria, a certeza de ser capaz.
E a linda festa dos 30 anos – impossível descrever tamanha riqueza, em todos os sentidos – foi o fechamento de um ciclo que começou lá na adolescência e que se encerrou nesta noite em que médicos, engenheiros, dentistas, publicitários, jornalistas, fonoaudiólogos, professores de educação física, profissionais e pais de família, se acabaram de dançar, se atiraram no chão para sair bem nas fotos, viraram crianças novamente, em um rito de passagem que homenageia a instituição que nos preparou tão bem – isso é uma realidade – para a batalha que é a vida.
Obrigada, Colégio Santo Agostinho. Obrigada aos colegas que organizaram a festa dos 30 anos. Muito obrigada.
Meu pai, zeloso com a filha única, deve ter se informado com os amigos e veio com a ordem:
- Vai estudar no Santo Agostinho.
- Quero o Princesa Isabel.
- Santo Agostinho!
No segundo ano ele morreu e me abandonou com a decisão. Eu podia ter mudado de escola, mas já havia feito laços de amizade e resolvi permanecer. Nesse mesmo ano fatídico, fiquei em recuperação pela primeira vez na vida, matemática, e passei janeiro inteiro frequentando aulas as segundas e quartas, para fazer uma prova no final do mês em que tenho certeza que não tirei a nota exigida. Mas me passaram de ano, e isso eu agradeço.
Veio o terceiro ano e as já sofridas aulas aos sábados se transformaram em provas aos sábados. Enquanto os amigos saíam à noite nas sextas, eu tinha que dormir às dez para levantar cedo e encarar avaliações de física, química, biologia... Queria morrer.
O Santo Agostinho coincidiu com um dos períodos mais duros da minha vida. A morte do pai, a doença da mãe, muita solidão. Talvez por isso não guarde lembranças claras e nenhuma foto. As colegas que organizaram a festa dos 30 pediram fotos, registros, o álbum de formatura. Não tenho nada. Não guardei nada. Nem saudade.
Mais tarde, quando um grupo de ex-colegas começou a me chamar para tomar chope, no início, não me sentia confortável. Com o tempo, passei a amar e a valorizar aquele grupo de pessoas bem parecidas comigo, bem formadas, que levam a vida com extrema seriedade e responsabilidade, segurando as barras sem fazer drama. Dizem que a escola não forma, quem molda o caráter é a família. Mas essa forma de encarar a vida é, sim, herança do Santo Agostinho.
Quando já era jornalista, fui entrevistar o antropólogo Everardo Rocha, que escolhi para meu orientador na monografia ao final do curso na faculdade. Contou que seus filhos estudavam no Santo Agostinho.
- Ai que horror, que colégio horrível, eu nunca colocaria meus filhos lá (de fato, não o fiz). Por que fez isso com os pobrezinhos?
- Porque queria formar seres humanos como você.
Assim aprendi também a sentir orgulho de responder à pergunta ‘onde você estudou?’:
- No Santo Agostinho.
Três anos de chumbo, muita pressão e pouco prazer. Três anos de tristeza e sofrimento na esfera pessoal. Mas três anos vezes dez são capazes de transmutar muita coisa. Na peneira do tempo ficaram a Amizade, a Alegria, a certeza de ser capaz.
E a linda festa dos 30 anos – impossível descrever tamanha riqueza, em todos os sentidos – foi o fechamento de um ciclo que começou lá na adolescência e que se encerrou nesta noite em que médicos, engenheiros, dentistas, publicitários, jornalistas, fonoaudiólogos, professores de educação física, profissionais e pais de família, se acabaram de dançar, se atiraram no chão para sair bem nas fotos, viraram crianças novamente, em um rito de passagem que homenageia a instituição que nos preparou tão bem – isso é uma realidade – para a batalha que é a vida.
Obrigada, Colégio Santo Agostinho. Obrigada aos colegas que organizaram a festa dos 30 anos. Muito obrigada.
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